Yasmim
Delfino
Algum Lugar
Creio
que quase sempre é preciso um golpe de loucura para se construir um destino.
Marguerite Yourcenar
Prólogo
Estação
Bedford Hills, Brooklyn
Setembro de 2003
As
folhagens cobres típicas do outono espalhadas pelo vento gélido vindo do sul cobrem o cinzento chão das calçadas com cores quentes.
Como estas folhas caídas sendo varridas pelos ventos,
seus espíritos livres os levavam sem destino.
Como estas folhas caídas sendo varridas pelos ventos,
seus espíritos livres os levavam sem destino.
Era mais um dia rotineiro no distrito mais
populoso do estado de Nova York. Encolhendo-se dentro de sua jaqueta Hard Rock, mochila no ombro, Peter caminhava pela calçada molhada em direção à estação de trem. Ainda se
perguntando por que diabo fora parar ali.
O Brooklyn é famoso por sua diversidade cultural, explicita em sua cena artística independente. Supondo que seria um bom negócio tocar em algum bar por lá, ele não duvidou que conseguisse arranjar algum bico e passar um tempo por aqueles lados. Mas é claro que não conseguiria ficar mais que um mês em um lugar, nunca passava disso. E por que as bundas daquelas morenas tinha que ser tão gostosas? Peter riu intimamente. O dono do bar mal encarado era também o dono daquele traseiro que ele se deleitou. Como ia saber? Deu de ombros com desdém. Mesmo se soubesse não deixaria de fazer o que queria. Não era a primeira vez que sua idolatria pelo sexo oposto o colocava em confusões. Essa era sua sina. E no final das contas ele não arrecadou grande coisa lá, grande merda, estava indo para algum lugar, algum outro onde esperava obter mais lucro.
Escorou-se no poste próximo a parada do trem, com um olhar semicerrado girou lentamente o rosto, observando o movimento ao seu redor. Tudo estava tediosamente calmo e normal, carros percorrendo a ponte ao longe, poucas pessoas caminhando nas calçadas. De repente duas Harley Davidson irromperam na rua principal, cortando o asfalto com um ruído metálico. As figuras negras curvadas encima delas um vulto que sumiram de vista ao virar a esquina em uma curva fechada com um ronco furioso e potente de motor. Peter suspirou, sentindo saudades de sua moto. Se não tivesse apostado naquele jogo... Puxou o cigarro preso atrás da orelha e apalpou os bolsos, procurando o isqueiro. Merda... Ele havia deixado encima da cômoda da pensão. Ouviu-se o barulho cortante outra vez e Peter ergueu a cabeça para olhar outras três motos passando a toda velocidade na rua, seguidas de um Fiat dos anos 1980, e logo atrás uma viatura da polícia com a sirene histérica ligada.
O céu estava cada vez mais nebuloso, as nuvens pesadas se aglomeravam sobre sua cabeça e Peter queria estar sob um teto quando a chuva caísse, nem que fosse o teto d’um trem. Com o cigarro apagado dependurado na boca, enfiou as mãos nos bolsos da jaqueta e seus olhos vagaram pela rua mórbida, as paredes grafitadas, os carros velhos estacionados, os trilhos do trem.
Minutos depois, percebeu com o canto do olho alguém se aproximar. Ele virou o rosto e seus olhos encontraram o rosto de uma mulher. Uma mulher linda!
Ela estava coberta de couro e ouro, calça justa, camiseta preta sob a jaqueta cheia de alfinetes espetados, anéis grades em quase todos os dedos, argolas largas nas orelhas, um colar brilhante no pescoço branco. Seu cabelo preto preso em uma trança grossa, cumprida até a cintura, pousada sobre o ombro como uma cobra de estimação. Os traços recortados e angulosos, um ar cortante cru, mas sua pele era branca como algodão e os lábios carnudos avermelhados doces. Capcioso Peter absorveu sua figura completa em ligeiros segundos, esquadrinhou o corpo sob o tecido justo e gostou do que viu. Passado a primeira vista ele a achou mais nova, não uma mulher mas uma garota, mas suas feições e seu ar se moviam em uma confusão perturbadora, se fosse mais nova que vinte não tinha nada de menina.
Os dois se fitaram por um momento, um choque curto. Os olhos dela negros como petróleo, frios, anavalhados. Não expressavam emoção alguma. Ninguém poderia suspeitar que ela acabara de despistar a viatura da polícia, derrapando pelo asfalto encharcado, cortado um caminhão e virado numa ruela entrando debaixo da ponte fora de vista, há três quadras dali, onde deixara sua moto.
Luann não sabia em qual direção Blake, seu namorado, seguiu, os dois se separaram no final da ponte, mas ela tinha certeza que ele também estava fora de alcance e já seguindo para o destino da negociação que tinha que tratar, Brian, Dylan e Jason, os outros três motoqueiros o encontrariam, e ela estava indo para casa de sua mãe. Sentou no banco respigado de chuva, as pernas cruzadas, as mãos sobre as coxas, perdendo-se no sentimento morno e amargo ao pensar na casa de sua mãe, em Brooklyn.
Peter ficara um pouco inquieto, desviou preguiçosamente o olhar para a rua. Um sopro frio de vento veio do leste fazendo as folhas douradas no asfalto cinzento se embolarem nos cantos da calçada, o trem demorava.
Ele desencostou do poste e sentou na extremidade oposta do banco, a direita de Luann. O céu se contorcia de nuvens carregadas. Peter pegou o cigarro preso atrás da orelha outra vez, umedeceu os lábios.
— Empresta o isqueiro? – Voltou os olhos amêndoas para ela.
A moça parecia estar dispersa, fitava algum ponto ao longe do outro lado da rua, abrindo e fechando a dobradiça do maçarico do isqueiro Zippo. Ela ergueu os olhos e piscou. Estendeu o isqueiro mal olhando para ele, sem mencionar palavra.
Peter pegou o zippo e acendeu o cigarro, nesse momento a sirene da viatura cortou o ar gélido outra vez, seguindo em disparada em direção a Manhattan. Os dois observaram-na ir em direção à Ponte do Brooklyn. O sangue de Luann borbulhou em suas veias, ela esquadrinhou a rua com os olhos, o ar morno e amargo se esvaindo em um fluxo de sangue gélido, um corvo subindo a voo. Ela então soltou o ar pesada e discretamente pelas narinas, sentindo a moto sob seu traseiro e o guidom pressionando a palma das mãos e dedos.
O cara de pele morena devolveu o isqueiro – Obrigado, - sorriu.
— Você tem horas aí? – ela perguntou cortando o final da fala dele.
Peter olhou no relógio de pulso.
— São 15h18. – Disse expelindo fumaça de cigarro.
Luann balançou minimamente a cabeça e acendeu um cigarro para si. Enquanto esperavam começaram a conversar. Peter disse o trem das três e vinte, e ela disse caralho, com um sorriso debochado, e então fizeram comentários sobre o bairro, a rotina suburbana. E continuaram a falar no trem, Luann de repente dava risadas joviais, tonalizadas pelo seu ar cortante usual, envolvida pelo carisma do moreno de olhos topázio e voz doce, sentiu-se entretida, esparramada no banco ao lado dele, falando de Bob Dylan, pessoas perdidas nas plataformas da estação de trem. Mas ela desceu duas paradas depois, e eles não mencionaram para onde iam, o que faziam, onde moravam, quem eram. Antes que ele pudesse saber seu nome a perdeu no frio. Dias se passariam e Peter lembraria dela ao menos uma vez por dia, ficara curioso a seu respeito.
Não foi muito longe naquele dia, desceu em East New York, dormiu num motel, cantou nas ruas por três dias e neles voltou àquela parada de trem, na rua chutando pedras, dando voltas no mesmo quarteirão. Na Flatbush Farm verificando todos os cantos da loja, cutucando os ombros das pessoas, perguntando se a conheciam. Ele se perguntou se um dia a encontraria de novo. Partiu de Brooklyn sendo levado outra vez por seu instinto sem destino. Mas os ventos do outono sopram para onde querem as folhas soltas.
O Brooklyn é famoso por sua diversidade cultural, explicita em sua cena artística independente. Supondo que seria um bom negócio tocar em algum bar por lá, ele não duvidou que conseguisse arranjar algum bico e passar um tempo por aqueles lados. Mas é claro que não conseguiria ficar mais que um mês em um lugar, nunca passava disso. E por que as bundas daquelas morenas tinha que ser tão gostosas? Peter riu intimamente. O dono do bar mal encarado era também o dono daquele traseiro que ele se deleitou. Como ia saber? Deu de ombros com desdém. Mesmo se soubesse não deixaria de fazer o que queria. Não era a primeira vez que sua idolatria pelo sexo oposto o colocava em confusões. Essa era sua sina. E no final das contas ele não arrecadou grande coisa lá, grande merda, estava indo para algum lugar, algum outro onde esperava obter mais lucro.
Escorou-se no poste próximo a parada do trem, com um olhar semicerrado girou lentamente o rosto, observando o movimento ao seu redor. Tudo estava tediosamente calmo e normal, carros percorrendo a ponte ao longe, poucas pessoas caminhando nas calçadas. De repente duas Harley Davidson irromperam na rua principal, cortando o asfalto com um ruído metálico. As figuras negras curvadas encima delas um vulto que sumiram de vista ao virar a esquina em uma curva fechada com um ronco furioso e potente de motor. Peter suspirou, sentindo saudades de sua moto. Se não tivesse apostado naquele jogo... Puxou o cigarro preso atrás da orelha e apalpou os bolsos, procurando o isqueiro. Merda... Ele havia deixado encima da cômoda da pensão. Ouviu-se o barulho cortante outra vez e Peter ergueu a cabeça para olhar outras três motos passando a toda velocidade na rua, seguidas de um Fiat dos anos 1980, e logo atrás uma viatura da polícia com a sirene histérica ligada.
O céu estava cada vez mais nebuloso, as nuvens pesadas se aglomeravam sobre sua cabeça e Peter queria estar sob um teto quando a chuva caísse, nem que fosse o teto d’um trem. Com o cigarro apagado dependurado na boca, enfiou as mãos nos bolsos da jaqueta e seus olhos vagaram pela rua mórbida, as paredes grafitadas, os carros velhos estacionados, os trilhos do trem.
Minutos depois, percebeu com o canto do olho alguém se aproximar. Ele virou o rosto e seus olhos encontraram o rosto de uma mulher. Uma mulher linda!
Ela estava coberta de couro e ouro, calça justa, camiseta preta sob a jaqueta cheia de alfinetes espetados, anéis grades em quase todos os dedos, argolas largas nas orelhas, um colar brilhante no pescoço branco. Seu cabelo preto preso em uma trança grossa, cumprida até a cintura, pousada sobre o ombro como uma cobra de estimação. Os traços recortados e angulosos, um ar cortante cru, mas sua pele era branca como algodão e os lábios carnudos avermelhados doces. Capcioso Peter absorveu sua figura completa em ligeiros segundos, esquadrinhou o corpo sob o tecido justo e gostou do que viu. Passado a primeira vista ele a achou mais nova, não uma mulher mas uma garota, mas suas feições e seu ar se moviam em uma confusão perturbadora, se fosse mais nova que vinte não tinha nada de menina.
Os dois se fitaram por um momento, um choque curto. Os olhos dela negros como petróleo, frios, anavalhados. Não expressavam emoção alguma. Ninguém poderia suspeitar que ela acabara de despistar a viatura da polícia, derrapando pelo asfalto encharcado, cortado um caminhão e virado numa ruela entrando debaixo da ponte fora de vista, há três quadras dali, onde deixara sua moto.
Luann não sabia em qual direção Blake, seu namorado, seguiu, os dois se separaram no final da ponte, mas ela tinha certeza que ele também estava fora de alcance e já seguindo para o destino da negociação que tinha que tratar, Brian, Dylan e Jason, os outros três motoqueiros o encontrariam, e ela estava indo para casa de sua mãe. Sentou no banco respigado de chuva, as pernas cruzadas, as mãos sobre as coxas, perdendo-se no sentimento morno e amargo ao pensar na casa de sua mãe, em Brooklyn.
Peter ficara um pouco inquieto, desviou preguiçosamente o olhar para a rua. Um sopro frio de vento veio do leste fazendo as folhas douradas no asfalto cinzento se embolarem nos cantos da calçada, o trem demorava.
Ele desencostou do poste e sentou na extremidade oposta do banco, a direita de Luann. O céu se contorcia de nuvens carregadas. Peter pegou o cigarro preso atrás da orelha outra vez, umedeceu os lábios.
— Empresta o isqueiro? – Voltou os olhos amêndoas para ela.
A moça parecia estar dispersa, fitava algum ponto ao longe do outro lado da rua, abrindo e fechando a dobradiça do maçarico do isqueiro Zippo. Ela ergueu os olhos e piscou. Estendeu o isqueiro mal olhando para ele, sem mencionar palavra.
Peter pegou o zippo e acendeu o cigarro, nesse momento a sirene da viatura cortou o ar gélido outra vez, seguindo em disparada em direção a Manhattan. Os dois observaram-na ir em direção à Ponte do Brooklyn. O sangue de Luann borbulhou em suas veias, ela esquadrinhou a rua com os olhos, o ar morno e amargo se esvaindo em um fluxo de sangue gélido, um corvo subindo a voo. Ela então soltou o ar pesada e discretamente pelas narinas, sentindo a moto sob seu traseiro e o guidom pressionando a palma das mãos e dedos.
O cara de pele morena devolveu o isqueiro – Obrigado, - sorriu.
— Você tem horas aí? – ela perguntou cortando o final da fala dele.
Peter olhou no relógio de pulso.
— São 15h18. – Disse expelindo fumaça de cigarro.
Luann balançou minimamente a cabeça e acendeu um cigarro para si. Enquanto esperavam começaram a conversar. Peter disse o trem das três e vinte, e ela disse caralho, com um sorriso debochado, e então fizeram comentários sobre o bairro, a rotina suburbana. E continuaram a falar no trem, Luann de repente dava risadas joviais, tonalizadas pelo seu ar cortante usual, envolvida pelo carisma do moreno de olhos topázio e voz doce, sentiu-se entretida, esparramada no banco ao lado dele, falando de Bob Dylan, pessoas perdidas nas plataformas da estação de trem. Mas ela desceu duas paradas depois, e eles não mencionaram para onde iam, o que faziam, onde moravam, quem eram. Antes que ele pudesse saber seu nome a perdeu no frio. Dias se passariam e Peter lembraria dela ao menos uma vez por dia, ficara curioso a seu respeito.
Não foi muito longe naquele dia, desceu em East New York, dormiu num motel, cantou nas ruas por três dias e neles voltou àquela parada de trem, na rua chutando pedras, dando voltas no mesmo quarteirão. Na Flatbush Farm verificando todos os cantos da loja, cutucando os ombros das pessoas, perguntando se a conheciam. Ele se perguntou se um dia a encontraria de novo. Partiu de Brooklyn sendo levado outra vez por seu instinto sem destino. Mas os ventos do outono sopram para onde querem as folhas soltas.
Yasmim Delfino

Não sei porque, mas quando comecei a ler me lembrei de 'Again' "Quem pensou que um dia foi tão errado,iria revelar-se tão adorável. Estou tão feliz que encontrei você." essa fic é bem diferente da outra como você me disse, mas não perdeu a graça dos detalhes, tudo tão detalhado que me vi no Brooklyn , naquela estação de trem! haha... Gostei muito da base, foge muito do que eu já li por ai e isso me fez querer capítulos o mais rápido possível! #Mii
ResponderExcluir*o* Oool! Yeah! Bola dentro!! Que bom que tenha gostado, eu precisava mito saber sobre a aceitação de vocês em relação a inovação dessa história. ^^'
ResponderExcluirrs, inevitavel, caramba! Por mais que eu tente ser direta não consigo atropelar as descrições que em minha opnião é oque dá o clima ao que se lê! Obrigada Mii!! :*
Isso me faz saber que estou no caminho certo. :)
ps: olhe a tradução de Somewhere in Brooklyn.
A terceira fic - kk - que é inspirada em Again. Coincidência você acertar assim de cara! *O*
ah!! perfeita a descrição do Brooklyn. tô super anciosa pra o primeiro cap. vai ser maravilhoso uma fic no MEU Brooklyn, se for fofa como a outra então...Nossa, vou morrer a cada cap. luanabia :)
ResponderExcluirOlha oq eu achei...cara que idéia incrível.
ResponderExcluirAnsiosa pelo final de Moe uhane, e ansiosa pra essa começar de verdade...rsrsr
Gostei por demais...essa pelo jeito será um tipo mais...frenético...explosivo que a outra não??
Gostei muito desse prólogo,a descrição dos detalhes,me vi naquela estação acompanhando os dois do outro lado da rua!
ResponderExcluirSucesso nessa nova fanfic,me parece que será bastante intenso..Bjs!