Na manhã seguinte, acordo cedo. Se existe uma parada muito desrespeitosa é acordar tarde na casa de quem madruga para trabalhar, por isso ás 6:00 a.m eu estou de pé, de banho tomado, vestida e muito desperta. Do lado de fora da janela o som de pássaros é próximo, e o ar entra muito fresco. Debruço no peitoril e fico observando o gramado, o céu claro com algumas estrelas ainda aparentes. A sensação é muito pacífica. Eu espero ouvir as vozes ou passos dos donos da casa. Quando ouço aguardo um instante e desço.
Edgard está em pé na soleira da porta da frente, que fica no final da escada, percorro o curto hall, paro ao lado dele. — Bom dia.
Edgard vira o rosto para o lado, fumaça saindo pelo nariz. — Bom dia, garota. Como passou a noite?
— Bem.
Ele leva o cigarro à boca. — Que bom.
Recosto na parede de fora ao lado da porta e acendo um cigarro. — Vamos à cidade agora, quer nos acompanhar? — Edgard pergunta.
— Claro. — Respondo fazendo um meneio afirmativo com a cabeça, trago o cigarro.
Olho para o quintal dos vizinhos à direita, as cercas vivas bem cuidadas, árvores e canteiro de flores, bancos de ferro e mesas com cadeiras, eu não tinha reparado isso a noite passada. Os quintais não são iguais, um tem mesa de piquenique comprida, outro dois bancos a menos, uma árvore a mais. Imagino que deve haver um espaço de lazer nos fundos também, mas não faz diferença, não há vizinhos de quem se esconder, são apenas as quatro casas em uma propriedade enorme. À frente, um pouco para a esquerda há dois celeiros, e outro mais a direita. Não dá para ver os limites das terras. Fico curiosa a respeito dos outros integrantes da família, mas não faço comentários. Edgard me chama para tomar café e eu o acompanho até a cozinha.
Kim fez bolo, o cheiro dele e do café vão até o corredor. No mesmo momento em que eu entro na cozinha William sobe os degraus da porta dos fundos. Ele segura um boné preto nas mãos, o coloca na cabeça, amassando o cabelo escuro bem penteado, e sorri para mim. Um sorriso de lábios fechados, simpático, que eu retribuo.
Enquanto comemos, de repente uma voz de homem se mete casa adentro.
— Ei, Edgard! Sabe aquele cachorro desgraçado? Rapaz! Ha! ha! — O dono da voz aparece no corredor. Ele é alto, barrigudo, de cara vermelha e cabelo claro, deve ter uns quarenta anos. Continua falando. — Ei, Kim, bom dia! Aquele filho da puta entrou lá em casa essa manhã! Sara em vez de correr dele foi pra cima, a danada! Ele deu uma rasteira nela.
— Meu Deus, o que aconteceu? Ela tá bem? — Kim leva as mãos à cintura. O cara pega uma caneca e serve café, bebe. Todos olham para ele.
— Tá, tá. Ela matou o cachorro. — Recosta no armário. — Deu uma panelada na cabeça dele.
Edgard ri alto. Olho para William e Kim, eles sorriem.
— Acordo e dou de cara com aquela merda no chão da cozinha.
— Ah, eu mataria também. — Diz Kim parecendo irritada. — Esse bicho vivia invadindo nossa casa, fedido, teimoso! Era difícil enxotar ele!
— Onde você jogou o corpo? — Willian pergunta.
— Tá ali no carrinho de mão. Vou tacar fogo.
Kim arqueja e olha feio para o cara. — Você pegou na minha cafeteira e na minha caneca com mão de cachorro fedido morto, Cézar?
— Claro que não. — E olhando para mim: — Você é a namorada de William?
Uno as sobrancelhas por um segundo. — Não, sou uma amiga. Meu nome é LuAnn.
— Hm. — Ele dá um gole do café. Eu dou uma mordida no pedaço de bolo.
Edgard levanta. — Quer alguma coisa da cidade? — Se aproxima do Cézar.
— Tá indo lá? Traz cigarro.
— Sara não precisa de nada?
— Vou ver. — Cézar põe a caneca sobre a mesa e sai.
Willian levanta e pergunta se eu vou junto, falo que sim e nós dois saímos para pegar a caminhonete. O céu claro está um pouco mais azul e o sol um pouco mais alto manchando as nuvens de rosa claro.
— Vocês criam animais? — Sento na ponta do banco e fecho a porta. Willian entra pelo outro lado e escorrega do lugar ao volante para o do meio, ao meu lado.
Ele olha para mim com ar sorridente. — Não. Isso aqui era uma fazenda próspera, mas na época do meu avô. Ele passou por dificuldades e teve que vender muitas coisas, a partir daí abriu o negócio de carros.
A claridade do dia expõe seu rosto, muito nítido a trinta centímetros do meu. Os olhos da cor azul do céu. Sardas laranja-escuro concentradas no nariz e outras salpicadas perto dos olhos, o rosto bronzeado num tom alaranjado. Os lábios queimados de sol, vermelhos. William desvia o olhar para frente quando acaba de falar e eu olho para o lado, para a casa de Oscar. William não me seca como os outros caras, penso, ele é natural.
Edgard sai da casa de Oscar e entra na casa ao lado. Ouço-o dizer que vai perguntar à mãe dele se precisa de alguma coisa do mercado, interpreto o pedaço de papel em sua mãe como a lista de compras da casa de Cézar.
— Ele não gosta muito de ir ao centro da cidade. — William explica sem que eu comente nada. — Se tiver que ir faz tudo de uma vez.
— É compreensível, apesar dessa cidade não ser tão grande.
William dá um leve sorriso, e eu viro o rosto para o lado de novo. Ele sorri muito.
Alguns minutos se passam e Edgard toma seu lugar ao volante, entrega uma folha de papel a William e outra a mim. — Cada um fica com uma lista.
Primeiro vamos à loja de autopeças, depois ao mercado. Combinamos de nos encontrar na sessão de bebidas próximo ao caixa quando acabarmos. Seguindo os itens da lista "Mãe", rodo pelos corredores e pego tudo sem demora. Willian já está lá quando eu chego. Paro o carrinho ao lado e me debruço nele, afundando em profunda observação do ambiente ao meu redor.
Nunca penso muito sobre isso, mas tenho consciência de que não sou uma pessoa muito convidativa. Toda vez que olho no espelho vejo a sombra em meus olhos. Eu não sou triste, sou feliz por ser quem sou. Dizem que sou enigmática, e eu aceito esse adjetivo. Afinal, não revelo o que penso nem o que sinto. O negócio é que quem se expõe, quem se revela demais, se torna vulnerável. Você nunca deve deixar que te conheçam como tal. Seja imprevisível, as pessoas temem o que não conhecem. Essa sempre foi minha natureza, sou introspectiva. E atrás dos meus olhos há muito em oculto.
Às 10hrs já estamos de volta. A oficina está aberta e Oscar mostra o interior de uma SUV a um cliente. Edgard vai para o escritório, William e eu entregamos as compras às senhoras e depois vamos para a oficina. Jean, o cara de cabelo bagunçado que usa brincos, e Álvaro, o de barba e cabelo cumprido, trabalham cada um em um carro. A oficina é espaçosa, um caos organizado de parafernálias mecânicas. Há pneus novos e usados empilhados em vários lugares, ferramentas penduradas em suportes nas paredes de cima a baixo, sobre as bancadas, latas e garrafas de óleo e graxa. Passo pelos rapazes e me aproximo da minha Chopper, suspensa num negócio de ferro.
— E aí, gata? — Álvaro sorri para mim. Ele segura uma peça na mão e borrifa alguma coisa nela.
— Fala. — Faço um gesto com a cabeça, sorrindo. As peças da minha Chopper estão sobre uma mesinha de metal com rodinhas, reconheço o motor e agacho pra meter o dedo na graxa.
William veste o colete cinza sujo por cima da camisa e começa a mexer em uma caixa de ferramentas. Jean ergue a cabeça e pisca pra mim. O rosto dele está sujo de graxa, no queixo e nariz, manchas escuras iguais aos olhos dele. Levanto e me aproximo de William, ajudo a tirar as peças compradas da sacola, sento numa das pilhas de pneus, acendo um cigarro e tranquila observo.
William separa as peças, as ferramentas, pega o motor e o coloca no suporte de bancada. O sol da manhã bate forte no chão e o reflexo é muito claro, muito quente. William lubrifica algumas peças, ergue a Chopper no cavalete e as coloca no lugar, aperta porcas e pinos, lixa alguma coisa, aperta firme, solda as válvulas explicando que agora não haverá vazamento, mas quando eu dirigir ainda pingará uma gota de óleo, a condensação, ele poderia resolver mas diz que é bom deixar o motor respirar.
— Quando se modifica uma Harley ela se torna menos confiável. Seu pai modificou tudo aqui — fala enquanto mexe nos cabos de freio e acelerador, — o poder de arranque é muito grande, acho melhor você aprender a pilotar com uma de nossas motos mais fracas, pra não bater com essa. — Com a testa franzida, olha da moto para mim, sério. Eu abro um sorriso e digo:
— Eu não quero passar pelo tédio de aprender a pilotar com uma moto fraca. Não vou aprender direito com a Chopper me olhando. — Uno as sobrancelhas.
William dá um riso baixo e concorda. Depois de limpar, lustrar, soldar mais algo ali, aqui e pintar ele diz que está pronta. Pulo da pilha de pneus para o chão. — Por quanto ficou?
William me dá um sorriso suave. — Por conta da casa. — Limpando as mãos em um lenço azul.
— Não, cara. Quanto te devo?
— Nada. Chucky era de casa. Assim como te entregar o que é seu temos a responsabilidade de garantir que esteja tudo em ordem.
— Fala aí! — A voz chega de trás, eu me viro e vejo Lue se aproximar tirando uma mochilas das costas. — Terminaram?
— Acabei agora. — William diz.
— O que vai fazer agora? — Lue joga a mochila na bancada, me lançando um olhar meio zombeteiro.
— Vou aprender a pilotar.
— Eu te ensino.
Eu sorrio para ele. — Certo, então.
— Tô no último ano. — Ele conta sorrindo sem que eu indague nada. — Fui reprovado dois anos. — Pelo tom despreocupado vejo que não se importa. Tira o casaco vermelho e a blusa de baixo quase sai junto, descobrindo seu corpo até o peito. Eu olho descaradamente. Lue puxa a gola pela cabeça e ajeita a camisa branca. William esfrega a lataria da moto com a flanela e sem que ninguém veja há uma troca de olhares entre Lue e eu. Aquele entendimento mudo. Breve.
Lue vai para o fundo da oficina, eu me volto para Willian. Ele me apresenta a moto, mostrando onde ficam os controles, acelerador e freios.
— A mão direita tem duas funções, aceleração e frenagem. Aqui, está vendo? Torcer o punho do acelerador injeta gasolina no motor. A alavanca direita aciona o freio dianteiro. O pedal direito aciona o freio traseiro. — William olha para mim com a expressão interrogativa, faço um meneio com a cabeça de que estou acompanhando. — Você tem que saber que quando os freios dianteiros estão em uso o freio traseiro não tem muito efeito, porque tem a transferência de peso pra frente durante a frenagem. Você pode usar os dois ao mesmo tempo, pra dar estabilidade. O freio traseiro funciona melhor em velocidade baixa.
Ele faz um gesto com a palma da mão virada para baixo, repito mentalmente o que ele me diz. Acendo um cigarro para ele e outro para mim.
— Lue vai te explicar tudo com detalhes, parece complicado mas na prática é fácil. — Traga o cigarro. — As motos customizadas distribuem muito do peso sobre a roda traseira, então no seu caso é mais eficaz usar o freio traseiro. — Sopra fumaça. — A embreagem é essa alavanca no punho da mão esquerda, você vai precisar dos quatro dedos pra operar a alavanca. Ela conecta e desconecta o motor da transmissão, quando você aperta o manete da embreagem você coloca em ponto morto, mesmo que o câmbio esteja engrenado... — Ele se interrompe e me olha puxando a boca de lado.
— Estou entendendo, porra. — Sorrio e levo o cigarro à boca. Os termos não me eram totalmente estranhos.
—Então, quando a moto está engrenada e você solta a embreagem transmite a potência do motor para a roda traseira. — William agacha e aponta para a parte de baixo da moto. — Câmbio: você usa o sapato pra empurrar a alavanca pra cima, pra reduzir a marcha você o empurra pra baixo. A primeira é pra baixo e o resto é pra cima. Sobe pra segunda, terceira, até a quinta, entendeu?
— Tranquilo. — Respondo, e vejo pela visão periférica Lue andando do outro lado da oficina. Penso que ele vai se aproximar pra me dar a aula mas Lue curva a cabeça sobre o capô de um carro, abro a boca pra chamá-lo mas Willian tira a Chopper do suspensório e a leva para fora. O sol do meio-dia faz a lataria prateada reluzir e eu perco a fala.
O quadro é lindo. Esse homem forte nessa máquina sensual e poderosa. Eu sorrio largamente. Um ímpeto pulsa no meu peito quando William liga o motor e a máquina arranha ameaçadora, provocante. Uma chama acende atrás dos meu olhos. O ruído aumenta em poucos segundos para um ruído potente, constante, o som de um orgasmo prolongado. William ergue a cabeça e olha para mim, sorri de um jeito que considero obsceno.
— Tem que esperar a aquecer um pouco. Sobe aqui. Vamos ver como ela está correndo! — Um gesto com a cabeça, os dedos acariciando o acelerador.
Eu me aproximo a passos largos e pulo na garupa. O sol está pelando e a luz muito dourada. Oscar aparece na janela lateral do escritório, a nossa direita, e os rapazes saem da oficina para olhar também.
Um ronco cortante atravessa o corpo da moto e meu esqueleto vibra, o arranque é como empurrão nas costas a 60km/h. "O arranque é o mais foda." Lembro de William falando. Percorremos o pátio cimentado e avançamos para o chão de terra poeirenta. Willian acelera, reduz, acelera e mantém a velocidade, segue em linha reta e acelera mais. Me estico para ver o medidor, 70, 80, 100km/h. Nós dois rimos, a moto é monstra. William faz círculos e curvas inclinadas, penso que a moto vai virar e vamos cair mas ele percorre todo o terreno em alta velocidade, fora a fora e o motor vibra debaixo da minha bunda, o ar quente bafejando no rosto, o céu azul deslizando. É atordoante e eletrizante. Acontece rápido e quando paramos em frente à oficina eu quero mais.
Não sinto muito meu corpo, quando coloco os pés no chão meu espírito está evaporado. Ele entra de volta pelos meus poros aos poucos, trazendo consciência e a clara percepção de que é disso que eu gosto, é disso que eu sou feita. E eu quero mais. Sinto o gosto na ponta da língua.
Olho para William e percebo o veneno entrando em minhas veias, correndo em meu sangue. E dou um sorriso de lado.
— Parece que ela tá perfeita! — Berra Edgard. Eu olho pra janela, ele está ao lado de Oscar.
— É o que parece! — Concordo com a cabeça sem conseguir tirar o sorriso da cara.
Lue e eu passamos as horas seguintes juntos. Primeiro ele pergunta o que já sei e eu repito tudo o que William me ensinou. Lue parece um pouco decepcionado. Mesmo percebendo que não sou uma otária os caras tem resistência em aceitar minha astúcia. Não os condeno por essa postura, porque eu mesma já vi muita garota idiota por aí, como já vi vários caras imbecis, e eu sou uma rara e preciosa exceção entre as mulheres. Lue, assim como os outros, viu que não sou comum, mas ainda esperou que eu agisse como uma retardada.
Com frases curtas e diretas eu deixo bem claro com quem ele está lidando, mostro os controles da moto com familiaridade e confiança. Lue está usando o colete sujo de óleo sem camisa por baixo e ele exala uma combinação de cheiros que lubrificam minhas peças, por isso dou um desconto. Aprecio a pele bronzeada dele sem pudor e escrúpulos, confortavelmente. Quando se trata de automóveis os caras daqui ficam completamente absorvidos, então ele não se manca dessa vez. Eu estou ansiosa pra subir na moto mas gosto de unir o prazer ao deleite, então não me apresso, aprecio os dois.
— Você já conhece os controles, beleza. Agora precisa se familiarizar com a moto, sentir a ergometria dela. Sobe aqui. Pelo lado esquerdo.
— Sentir o que?
— O corpo da moto, o esforço físico que você tem que fazer pra comandar ela. — A voz dele soa ao meu ouvido quando passo por ele para subir na Chopper. Uma voz de garoto, quente.
O banco rebaixado sobre o motor permite que meus pés toquem o chão e meus joelhos ficam dobrados, seguro os punhos do guidão e me acomodo no banco macio de couro, meus braços ficam erguidos na altura dos ombros.
Lue passa os olhos pelas alças finas da minha camiseta, pelos meus ombros e pelo decote circular no meu busto, olha minhas pernas e se demora na parte exposta da minha barriga. Percebo que ele não pode evitar. Sorrio com os lábios fechados, olhando no rosto dele, e viro pra frente.
O painel se abre em um triângulo que me lembra a cabeça de um bode, e o guidão o par de chifres. Por um instante eu visualizo o velho Chucky sentado no meu lugar, deslizo a ponta dos dedos pelos crânios cravados no guidão, cintilam ao sol, os buracos dos olhos escuros onde a luz não alcança e as bocas variam entre sorrisos escancarados e dentes cerrados em ameaça. Adoráveis.
Quero acelerar e arrancar insanamente. Minha mão coça mas inclino a cabeça para o lado e sorrio de um jeito meio doentio, me controlo.
— Primeiro gire a chave, agora o pedal de partida — Lue fala baixo e eu sigo as instruções. Aguardamos um instante. — Ponto morto. Acione a embreagem. Agora torça o acelerador de leve, bem de leve, pra jogar combustível nos cilindros.
A moto vem a vida e o motor funciona, aquele som parecido com um peido mecânico desabrocha e cresce para um ronco constante. Meu coração bate acelerado.
— Você tem que confiar na moto, tem que confiar que ela vai produzir a energia necessária quando for exigido, pra isso tem que deixar o motor aquecer um pouco, mas isso William já fez, então tá tranquilo. Só lembre que tem que dar alguns segundos, pra garantir que o motor não falhe... se bem que acho difícil com uma máquina dessa. Quando for dar a partida não esqueça de jogar o descanso pra trás…
Torço o punho do acelerador, "a primeira é pra baixo e o resto pra cima". A moto rugi e vibra potente, rouca. Avanço em uma arrancada bruta, acelero sem pensar e freio em seguida, isso quase me faz voar pra frente, solto o freio e o pneu raspa no chão, derrapando. Viro para o lado, o peso da moto quase me derruba mas estico a perna e apoio o pé no chão, jogo o peso do corpo para o lado oposto.
— Caralho! Calma, LuAnn! — Lue corre até mim. — Tem que acelerar aos poucos, seja mais delicada. — Olho feio pra ele, mas Lue não me deixa interromper. — Rotações bruscas do motor causa instabilidade e você derrapa, acelere devagar. E quando freia; a mesma coisa. Suavidade. Se não você vai cair.
— Esqueci de usar o freio traseiro, William disse que são melhores em motos customs.
— É, isso. Pra parar a moto os freios dianteiros são melhores, mas você pode usar os dois junto, de leve.
Eu ligo a moto outra vez. — Mais uma coisa, você tem que ser flexível, na corrida você vai saber quando usar mais força. Nas curvas você vira junto com a moto, vocês duas são um corpo só.
Dou um sorriso largo e malicioso olhando para o rosto sério de Lue, ele demora um instante mas sorri também, um pouco apreensivo.
Ligo o motor e dou a partida. O arranque é poderoso, meu coração bate forte. Com a bunda confortável no banco, cabelos ao vento e cabeça no céu azul sincronizo os comandos e avanço. Braços esticados na altura dos ombros, sol queimando a pele, os nós dos dedos salientes no guidão prateado, percorro o chão de terra poeirenta. O motor está bem aqui dentro do meu peito, ele ruge baixo e grave, uma sensação poderosa que me assusta e fascina ao mesmo tempo. Sorrio, e um riso sai da minha boca. Viro o par de chifres de bode fazendo um arco entre as plantas silvestres que roçam em minhas pernas nuas, olhos cerrados debaixo do sol, sentimento pacífico.
E em um segundo minha visão escurece. Meu punho gira no acelerador, meu pé sobe a alavanca mudando de marcha, mais uma vez, de novo e chispo como o disparo de uma 9mm. Os ombros inclinados e a cabeça pra frente, sobrancelhas arqueadas, me atirando adiante. O barulho do motor preenche meus sentidos, sacodem meus ossos. Sangue brota de minhas papilas, eu engulo e sinto escorrer quente pelo meu queixo enquanto dou solavancos em mudanças de marcha e aceleradas imprudentes. Me vejo subindo no ar, bem alto, e caindo em um explosão laranja e barulhenta, isso me faz rir alto. As ervas daninhas altas raspam em minhas pernas, vejo as casas e os celeiros ao longe, correndo pelos meus olhos, vou em direção a eles e volto, vou e volto, volto e vou.
Diminuo a velocidade aos poucos, retorno fazendo zigue-zagues abertos, treinando curvas, e paro a frente de Lue. Ele me observa com as mãos na cintura e olhos cerrados contra o sol forte.
Abro um sorriso. — Ela é bem leve. — E dou uma risada.
Lue ri também. — É ótima pra longas viagens, você vai ver. — Olha para mim fixamente, expressão radiante, suado, bronzeado.
Eu o encaro em silêncio por um instante e avanço até parar bem perto.
— Isso foi muito fácil. — Passo as mãos pelos punhos da moto, sem desviar os olhos de Lue. Gostas de suor escorrem pela minha testa e bochechas.
Lue balança a cabeça negativamente, sorrindo, não está surpreso. Seu olhar se intensifica de admiração e percebo que está excitado, louco para me foder bem aqui.
— Quer dar uma volta? — Faço um gesto com a cabeça.
Lue senta na garupa e eu arranco. Não estou nenhum pouco surpresa com a facilidade com que dominei a coisa, foi como se eu já tivesse feito isso. Um instinto pronto que esperava sua chance de vir a tona. E eu piloto e acelero portão a fora sem querer parar nunca.
Acelero como louca, o motor tremendo e fazendo barulho. Uuuuhuhuuuu!
— Ei, não abusa! — Lue agarra meu braço direito no ar e puxa pra baixo, pego no guidão de novo, rindo. Aahahaha! As pernas dele estão enganchadas nos meus quadris, uma mão na minha cintura. — O carro! Olha o carro! O carro! Desacelera! Devagar!
— Huuh! — Meu cabelo esvoaça como corvos na minha cara. Estamos na rua deserta em frente ao ferro velho. Não desvio do carro velho na lateral esquerda da rua, quero ver no que vai dar, se consigo me elevar e passar por cima dele ou se vamos bater e morrer, vejo as duas cenas em flashes lépidos, Lue se inclina para virar o guidão mas eu desvio no último segundo. Ha! haha!
Olho para Lue pelo retrovisor, ele faz um gesto negativo com a cabeça de novo mas ri, com os olhos arregalados e rosto lívido. Meu cérebro revirado no crânio gargalha de rolar. Acelero pela rua adiante, deixando os prédios antigos abandonados para trás e alcançando os novos bonitos e atraentes. O barulho estrondoso chama a atenção de quem está na rua e os pescoços se viram à procura. As pessoas param com as bocas entreabertas e os olhos vidrados. Eu não sorrio mais. Meu rosto se aprofunda em uma expressão militar. A cara de Lue pelo retrovisor também muda. Me sinto em um desfile, nada como um desfile de moda, aquilo é fragilidade e delicadeza, isso aqui é poder e velocidade, força.
O olhar das pessoas é de admiração e medo, estou acostumada com olhares assombrados e desconfiados. Me sinto poderosa, estou tirando a maior onda e me importo mais com o que sinto do que com a impressão que passo para os outros.
Mantenho a velocidade e costuro por entre os carros, minha fome, fúria e convicção me dão confiança e habilidade para as manobras, não tenho medo. Lue continua exclamando instruções mas não ouço. Passamos por comércios, há árvores ladeando as calçadas. A moto dá um tranco de leve e ouço um guincho, Lue olha para trás e diz que atropelei algo mas não paro pra olhar. Passamos por quarteirões de casas iguais, quintal gramado e muros baixos.
— William!
— Quê?!
— Passamos por William! Lá atrás!
— Ah! Não vi! — Berro virando um pouco o queixo pra trás, o gesto alivia o vento raspando nos meus olhos, estou lacrimejando.
Desconsidero o sinal fechado e faço o retorno de volta para o ferro velho. Quando chegamos paro a moto perto dos contêineres, atrás das pilhas de sucata e do galpão. Seco os olhos e as bochechas com as mãos.
— E aí, curtiu?
Sinto Lue jogar a cabeça para trás e ouço sua risada. Viro-me, ele continua sentado na garupa.
— Você é maluca! Pirada! Doida! Hahaha! Foda, foda.
Com um sorriso torto eu o observo esfregar os olhos, quando acaba de falar eu que dou uma risada alta. — Já sou piloto de fuga! — Apalpo os bolsos e pego minha carteira de cigarros e o isqueiro.
Ficamos aqui sentados na moto fumando e comentando os momentos da corrida. Depois de um tempo vejo, por trás de Lue, Oscar surgindo detrás de uma pilha mais distante de sucatas. Ele está acompanhado de um cara muito bronzeado de barba e cabelos escuros, usando colete de moto clube. Lue segue meu olhar e vira para trás, observamos eles passarem por nós e irem em direção à oficina.
— Tô com fome. — Lue olha para mim.
— Bora. — Viro para frente e faço a moto roncar. Lue engancha as coxas nos meus quadris outra vez e corremos em direção a alguma lanchonete.
Passamos o resto da tarde fora. Comemos dois cachorros-quentes cada um e rodamos pela cidade, saímos dela e percorremos a longa estrada deserta ladeada por montanhas cor de fogo até chegarmos a cidade vizinha. Voltamos ao entardecer. Olhando o horizonte iluminado, as linhas que contornam as rochas, um plano extenso deslizando por minhas asas.
— Aprendeu rápido, hein? — Edgard levanta da cadeira, no avarandado da oficina. — Tá no sangue.
Lue e eu descemos da moto e nos aproximamos, Edgard está recostado no parapeito de madeira. Jeans claro sujo e camisa branca sobreposta por um colete verde escuro.
— Desci da moto mas ainda sinto ela entre minhas pernas. — Digo, omitindo que sinto as pernas meio bambas e o corpo leve também.
— Ela dominou na segunda tentativa — posso ouvir o sorriso na voz de Lue enquanto ele senta nos degraus da escada ao mesmo tempo que eu.
Edgard levanta a tampa do isopor aos seus pés e me passa duas latas de cerveja, dou uma a Lue. Sinto seu cheiro, suor, masculinidade. Enquanto a noite cai, conversamos, o céu desbotado reflete nos vidros dos carros no pátio.
Edgard levanta a tampa do isopor aos seus pés e me passa duas latas de cerveja, dou uma a Lue. Sinto seu cheiro, suor, masculinidade. Enquanto a noite cai, conversamos, o céu desbotado reflete nos vidros dos carros no pátio.
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