segunda-feira, 23 de novembro de 2015

14



  Eu estou com um calor do caralho, esse é o último ponto, desço do ônibus e procuro por alguma placa ao redor.  
  — Vai reto, garota! No fim da rua! — O motorista grita da janela enquanto faz o retorno.  
 A placa no poste diz: Pedras de Fogo a 5km. Puta que pariu! Se o ônibus deixa até aqui, por que não anda mais cinco quilômetros? Começo andar. Eu estou com um calor do caralho, suando pra cacete, mas a sensação quente me deixa com tesão. Olho pro alto, corro os olhos pelo azul vasto e miro no sol, pestanejando. Ao voltar o rosto pra frente me sinto tonta e enjoada, o vapor sobe intensamente do asfalto, a minha frente a paisagem tremula.
Estou com fome e sede, mas acostumada com isso. Caminho em ritmo constante pela estrada rodeada de montanhas vermelhas pontudas, e o céu muito azul, muito céu muito azul. O silêncio é total, meus passos no asfalto poeirento são secos, uma águia paira sobre mim e voa alto. Não paro de andar mas minha mente se detém na sensação, não há nada além do azul, do vermelho e do calor, me sinto muito bem andando no meio desse nada todo. 
  O primeiro sinal que vejo é um boi. Pastando solitário e triste, no meio de alguns arbustos do lado direito da estrada. Depois, na curva, vejo umas casas e o portal da cidade, um arco alto de concreto com a placa centralizada que diz: Bem-vindo à Cidade Pedras de Fogo.
Atravesso o portal, o mato seco que ladeia a rua é substituído pela grama verde de um canteiro que se estende por alguns metros, há uma fileira de hastes com as bandeiras do país, do estado e da cidade fincados nele. Um cachorro-quente gigante se destaca contra o céu, o outdoor neon de uma lanchonete. À esquerda, prédios provincianos de três e quatro andares ao longo da rua acabam na esquina do próximo quarteirão, ao longe, vejo outras construções com aspecto semelhante.  Fiações cruzam o céu numa teia conectada a torres altas.
  Ando pela calçada direita até o estacionamento de um mercado, paro e observo. A rua se alarga em um cruzamento amplo, dividindo o espaço em quarteirões, então eu vejo casas de dois andares com telhados vermelhos e lojas entre árvores bem verdes. Há arbustos floridos ao longo das calçadas, árvores e montanhas rodeiam o panorama como plano de fundo. Poucas pessoas e poucos carros circulam. Viro e entro no mercado, vou direto para a sessão de bebidas, pego uma garrafa de água, pago e saio. 
 Bebo os 500 ml de água em dois goles, puxo a mochila para o lado e pego o pedaço de papel com as coordenadas e as minhas anotações. 32° 27' 13" N 100° 27' 8.  Centro do cruzamento, 3 quarteirões a leste, Rua 27, 8 quarteirões a oeste, Candy, Rua Luz do Sol, nº 4.
 — Certo. Tô no centro do cruzamento. — Ergo os olhos do papel e caminho para o centro do cruzamento. Puxo o último cigarro do maço no bolso lateral da mochila, atravessando a rua. E com o sol batendo do lado direito da cara vou pro leste. 
  Ando por quarteirões simpáticos, as árvores verdes são um padrão de três em três metros. Os postes e os prédios são baixos, as casas charmosas. Mas a cor não está presente por todos os lados, quanto mais avanço pelas ruas vejo a variação de matos desbotados, as ruas cinzentas de concreto sisudo, largas e de aspecto pacato. Há alguns bares, alguns restaurantes, algumas lojas — paro em uma delas pra comprar cigarro — e a cada quarteirão que avanço há menos estabelecimentos. 
 A oitava esquina quebra em uma rua abandonada. Há apenas dois prédios à direita, um afastado do outro, com fachadas descascadas e pichadas. Capim cresce das rachaduras no asfalto, e a direita um muro cinza alto se estende até o final da rua. Acendo outro cigarro e sigo em frente, olho pras fachada dos prédios, o primeiro não tem placa ou numeração mas o segundo, aparentemente uma antiga loja de doces, pintado de rosa claro sob tantos grafites, tem a palavra Candy pendendo em um letreiro de metal. Ao lado dele um poste com a placa Rua Luz do Sol aponta pra esquerda. 
 Viro o rosto e me vejo diante de um portão de ferro grande escancarado. Do lado de dentro pilhas de sucata passam a altura do muro, o terreno parece ser grande, dos dois lados os muros muito extensos. Vou em frente. O asfalto acaba e piso no chão poeirento de terra do outro lado do portão, o caminho é ladeado por pilhas de ferro velho. Depois delas passo por um trator a minha direita e por trás dele, vejo fileiras, conto cinco, com dezenas de carros, todos de cinco ou vinte anos atrás. O cheiro é de graxa, ferrugem, óleo e gasolina. Mais adiante, ainda à direita, há uma garagem cimentada com três caminhões em bom estado, ao lado um grande galpão de metal repleto de caixas e galões enormes. À minha esquerda apenas o amontoado de sucata. 
  Vou em direção ao estabelecimento à minha frente, alcanço o chão cimentado sob a tapagem de laje e enxugo o suor do rosto.  Um pátio com duas mesas com bancos compridos de concreto e uma caminhonete preta estacionada no canto. O estabelecimento é pintado de preto e há apenas uma janela pequena e uma porta estreita de madeira pintada de marrom. Ela está aberta, mas não há ninguém à vista, bato e espero. 
 Ninguém atende, olho ao redor e vejo apenas as ferrugens queimando ao sol. Bato outra vez, fazendo mais barulho, e espero. 
 — Não tem ninguém aqui, porra? — Falo, e um cara barrigudo aparece na hora. Calvo loiro, pele bronzeada com aspecto sujo, vestindo calça e colete jeans surrados e sujos. 
 — Que é? É do outro lado, minha filha! — Aponta para a lateral a minha esquerda. 
 — Não sabia. Preciso de uma informação. — Trago o cigarro, olhando fixamente para ele, pés firmes no chão, ombros erguidos. Ele me examina de cima a baixo. — O senhor é o dono daqui? 
 — Depende de quem quer saber. 
 — Meu nome é LuAnn. 
 — Eu sou Oscar. Em que posso te ajudar, LuAnn? 
 — Me deram esse endereço, mas não me contaram para quê, por isso preciso saber quem é o responsável, talvez possa me ajudar. 
 — Não te deram um nome? 
 — Não. 
 — Trouxe alguma coisa pra concertar? 
 — Não. 
 Ele ergueu os ombros. — Dá a volta, vou ver o que posso fazer. 
 Sopro fumaça e contorno o estabelecimento. O pátio da frente também é cimentado, com fileiras de carros mais conservados e novos, o portão de entrada é de ferro e grande igual ao o dos fundos. Subo os degraus da varanda e recosto numa das colunas e observo os automóveis brilhando ao sol. Ouço vozes e viro o rosto para direita, alguns mecânicos trabalhando na oficina a diante.  
 — Olá — Um homem alto e forte, bronzeado de aspecto engraxado aparece a porta. Um coroa como o outro ele é loiro também, mas seu cabelo é farto e cumprido na altura do queixo. Veste jeans sujos e uma camisa preta gasta. 
 — Oi, sou LuAnn. — Alinho a postura. 
 — Oscar me disse. Eu sou o Edgard. — Estende a mão para mim. — Aceita um refrigerante? 
  Trocamos um aperto de mão firme. — Se você tiver cerveja... 
 — Claro. — Ele faz um gesto com a cabeça e murmura, — Não tenho refrigerante mesmo... Me acompanhe, por aqui. 
 Ele andou até os fundos e eu fui ao seu lado, sente aí, disse, eu olhei em volta, e sentei no banco de concreto, ele entrou pela porta dos fundos e voltou logo trazendo duas latas de cerveja. 
 — Alguém te deu o endereço daqui? — Dá um gole da cerveja, eu dou vários da minha. Calor, sede. 
 — Meu pai. Há muito tempo ele me deu um pedaço de papel com este endereço. Meu nome é LuAnn Cowell, meu pai Charles Cowell. — Eu não tinha olhado em volta a procura de um rosto familiar, mas neste momento me ocorre outra vez que talvez meu pai tenha me dado o endereço do lugar para onde partiu. Olho bem nos olhos azuis de Edgard aguardando resposta, ele fica em silêncio por um instante. 
 — Você tem uma foto? 
 Puxo a mochila sobre a mesa e pego minha carteira. — Nós dois. Não tenho uma foto mais recente porque ele caiu fora quando eu tinha cinco anos. Você conhece? 
 Edgard olha a foto e algo atravessa seu olhar. — Sim, conheço. — Ele diz fazendo um gesto positivo com a cabeça devagar, eu uno um pouco as sobrancelhas. — Chucky. Velho e bom amigo, trabalhou aqui por um tempo. 
 — Trabalhou? Ele não está mais aqui? 
 — Não. Ele foi pra Nova York e acabou casando, com sua mãe suponho. — Sorri um pouco. 
 — É. 
 — Não voltou mais aqui por uns anos. 
 — Cinco, talvez? — Arqueio uma sobrancelha, num tom irônico. 
 Edgard comprime os lábios brevemente e me observa com seus olhos azuis. — É, acho que foi mais ou menos isso. 
 — Sabe onde ele está? 
 Edgard sorri levemente, mas ainda assim áspero, reparo as rugas e a espessura seca de sua pele queimada. — Não sei. Ele voltou depois de anos, não falou muito sobre o que tinha feito durante esse tempo, passou só alguns dias e foi embora sem dizer pra onde. Quando ele foi pra Nova York deixou umas coisas aqui, nem mexeu nelas quando deu as caras de novo. Certamente deixou pra você, algumas se você vender vai arranjar um bom dinheiro pra universidade. 
 Eu mantenho a expressão impassível por um momento e então lhe lanço um olhar quase debochado, Edgard entende e sorri. — Bom,  vamos ver o que ele te deixou. Espere aqui, vou pegas as chaves do depósito. 
 Observo-o entrar pela porta estreita outra vez, fisgo um cigarro do maço com os dentes e o acendo. Olho em volta e o lugar continua quieto, deserto, a sucata e os carros velhos pelando sob o sol. Sopra um ar quente na minha cara e viro o último gole da cerveja.  
 Passam-se alguns minutos, Edgard volta e me estende uma fotografia dizendo com certo tom de nostalgia— Chucky, velho amigo. 
 Os três homens estão sentados nos degraus da entrada de alguma casa, uma versão um pouco mais nova do que a lembrança que eu tenho do meu pai, Edgard e o tal do Oscar segurando garrafas de cerveja e cigarros, aparentemente gritando, as bocas apertas e os olhos brilhantes de embriaguez. Velhos amigos. 
 — Chucky deixou umas coisas pra você, o que espera encontrar? 
 — Um carro velho. 
 Ele dá uma risada. — Vamos ver, vamos ver. Me acompanhe! — Começa a ir em direção aos caminhões. Eu jogo a mochila nas costas e o sigo. Passamos pelos caminhões e pelo galpão, olho ao redor e vejo que há mais uma porrada de ferro velho atrás daquela primeira pilha, apesar disso a coisa é limpa e organizada, só um monte de lataria amontoada. E o terreno é de fato muito grande, atravessamos um espaço grande de terra até uma fileira de contêineres.  
 — Como você veio pra cá? 
 — Ônibus. Carona. 
 — E de onde veio? 
 — De longe. 
 — Acho que você vai gostar do que tem aqui. — Coloca a mão no bolso da calça e ouço o barulho do molho de chaves, agacha e enfia uma na parte inferior da porta de ferro, com um barulho alto ela sobe enrolando como um pergaminho. Edgard entra no contêiner, de início não vejo nada, a contra luz deixa o interior escuro. Aproximo-me e Edgard acende a luz. Há caixas de papelão, caixotes e volumes cobertos por panos e sacos pretos. 
 — Está aqui. — Edgard indica um dos volumes coberto por saco preto. — Puxa desse lado aí. 
 Dou a volta até a extremidade esquerda e seguro o plástico empoeirado. Eu não tenho ideia. Puxamos a porra do plástico e a porra de um guidom aparece, depois um acento foda de couro e meu coração para. Conheço muito bem o modelo, só de olhar o tanque de óleo em forma de gota. A porra de uma Chopper!  
 — Aí! — Edgard faz um gesto com as mãos, na cara um sorriso bobo para mim.  
 — Melhor que um carro velho. 
 Ele continua sorrindo. — Toda sua. 
 Olhei para ele. — E se ele voltar aqui pra buscá-la? Ele disse que isso era pra mim? 
 — Chucky te deu as coordenadas, não deu? Então era pra você vir aqui, garota. 
 Tenciono meu maxilar e uno minhas sobrancelhas, com os olhos cerrados ergo o queixo numa expressão altiva de desconfiança. Minhas verdadeiras indagações não são essas. Foda-se se ele deixou pra mim ou não, se vai buscar ou não, eu estou nem aí. A moto já é minha.  
 No fundo do meu coração semi-endurecido e obscuro eu sinto dor. Eu nunca soube por que meu pai nos deixou, nunca entendi o que aconteceu, não tinha ideia para onde ele teria ido. Eu não sabia nem em que ele trabalhava, até hoje, de onde veio, como cresceu. As lembranças que tenho são tão vívidas quanto incompletas, eu tenho a memória de sua voz e presença muito fortes mas não é o suficiente para juntar as peças da imagem de um pai, para conhecê-lo. E agora eu estou aqui, para onde ele veio depois de nos deixar, herdando uma porra de moto que eu nem sabia que ele tinha. 
 — ...problema damos um jeito. — Edgard fala. 
 — O quê? 
 — Faz tempo que não dou uma conferida nela, mas se tiver algum problema damos um jeito. Sabe pilotar? 
 Balanço a cabeça devagar em negativa, percebo vagamente que minha expressão fechou. Posso ver a minha imagem rígida e obscura como se assistisse de fora.  
 — Era do seu pai. — Edgard passa a ponta dos dedos pelo guidom. — O resto é ferramenta, peças, alguns objetos pessoais, eu acho. Ah, tem umas garrafas de whisky e rum também, Chucky gostava. — Edgard acende um cigarro e olha em volta, mexendo em algumas coisas por cima. — Vou deixar você a vontade, qualquer coisa estou na oficina. 
  Olho em volta, sem pensamentos nesse momento, admiro a Chopper, derretendo de deleite, linda, linda. Na estrada, a céu aberto, o céu azul, livre, para onde eu quiser, fácil e velozmente. Percorro os dedos pelo acento baixo, pelo guidom prateado alto cravado de caveiras, as tiras de couro pendendo dele, o retrovisor. 
 Visualizo Chucky sentado nela, não o meu pai Charles, mas um homem que não tenho ideia de quem foi. E então me lembro da imagem do homem de cabelos escuros aos ombros, lembro dele brincando comigo no sofá, a voz grave falando coisas engraçadas, o abraço seguro e protetor. Eu sempre achei que conhecia uma parte dele, que ele me mostrara um lado seu que nem mesmo a minha mãe vira, porque  falava baixo como se fosse segredo e muitas vezes se calava quando ela se aproximava. Ele desabafava comigo, falava sobre sua maneira de ver as coisas, me avisava sobre os perigos e as pessoas. Sentada em seus joelhos nos degraus em frente de casa, a guimba de seu cigarro  era um ponto de luz na semiescuridão da noite. A fumaça me incomodava mas sua voz me acalentava. Ele chegava do trabalho, pegava o café na cozinha, acendia um cigarro, me colocava em seu colo e brincava comigo, ás vezes me assustava porque algumas vezes ele era sombrio. Eu sentia que tínhamos uma ligação e que não importava se ele teve de ir embora, porque eu sabia que estávamos ligados.  
 Hoje eu não sei de nada, não penso nada, não acho nada. Ocorre-me agora que ele sabia quem eu era e quem eu ainda seria. E me pergunto, se foi por isso que me deixou a moto, se ele sabia que meu espirito é estranho e um dia eu partiria, como ele. 
 Jogo a mochila no chão e acendo um cigarro, levanto os outros panos e plásticos, olho dentro das caixas. Peças de roupas, jeans, camisas e casacos, a maioria gasta ou suja de graxa, um par de tênis branco, alguns sapatos escuros, peças e ferramentas mecânicas, garrafas de bebida. Nada revelador, nenhuma história. E isso não me afeta, viro as costas indiferente. 
 Livre, correndo, muito rápido! Sorrio comigo mesma pegando minha mochila no chão, saio do container,  sento à sombra recostada nele. Vendo-me correndo livre, muito rápido, deito e apago num sono tranquilo.  
 Quando acordo a luz do dia está esvanecendo. Levanto, jogo a mochila no ombro e vou em direção à oficina. Sempre olhando ao que está a minha volta vejo uma casa recuada depois de um grande espaço gramado, há algumas árvores, cerca, e vejo uma sombra se mover contra a luz do sol que se põe.  
 O pátio da frente está tranquilo, subo a soleira do avarandado e bato a porta. — Edgard, Oscar. Chamo mas não ouço nada. Desço os degraus e vou em direção à oficina, à esquerda. Por trás dos carros suspensos eu vejo os mecânicos se moverem, ouço vozes graves e música baixa, abafada. 
 Oscar e Edgard estão mais adiante, conversando em pé perto de uma bancada de ferramentas, nas paredes pneus, aros, correntes, bombas de ar pendurados. Observando-os juntos presto mais atenção em como são parecidos, por certo são irmãos. Altos, louros, o mesmo tom de pele clara queimada de sol, as mesmas orelhas. 
 Os rapazes mecânicos vestem um colete verde-escuro por cima de roupas comuns, trabalham tranquilos, com um ar jovial na conversa, envolvidos nas tarefas. Aproximando-me deles uma centelha de interesse pisca em mim, ouço um sussurro de um riso interior e maldoso. Piso devagar para que não me percebam antes que eu queira, os estudo rapidamente. São quatro. Todos entre vinte e trinta anos. Brancos. Em boa forma. Bronzeados. 
 Outro sussurro maldoso, um sorriso de lado. 
 Dou mais alguns passos e fico à vista, sento os olhares deles em mim, um por um, não olho diretamente de início. Indo em direção aos coroas meus pensamentos obscurecem, penso no que vou fazer agora, preciso aprender a pilotar. Olho diretamente para os gostosinhos sujos de graxa e há aquela curiosidade predisposta ao sexo. Dou passos um pouco mais largos e passo por eles, Oscar ergue uma mão para mim ao me ver. 
— Não quisemos incomodar. — Ele diz, e eu estou a mais ou menos dois metros, com um sorriso moderado — a viagem foi longa — falo. 
 — Aposto que sim. — Oscar concorda com a cabeça. Ele tem um traço de malícia no olhar, mas não de uma maneira nojenta. 
 — Já vamos fechar. — Edgard procura pelo relógio na parede. — Pedimos pizza, fica e come com agente.  
 Nele vejo apenas gentileza e amistosidade. Olho de um para outro. Os olhos são azuis no mesmo tom, mas o nariz de Edgard é comprido e o de Oscar mais bojudo, o formato do rosto de Edgard mais suave e o maxilar de Earl bem marcado. O dois tem algumas tatuagens nas quais não presto muita atenção, Edgard é mais bonito e parece ser um pouco mais novo. 
 Eu estou com fome, mas finjo pensar um pouco e concordo. — Valeu. 
 Pego o maço no bolso do jeans, bato na palma da mão, puxo um cigarro com os lábios enquanto saco o isqueiro, acendo. Dou o primeiro trago, percebendo que o clima está mais fresco agora, olho para o céu, branco manchado por um tom claro de laranja. Dou o segundo trago, longamente, me sentindo em paz, sem pensamentos. Isso transparece em minha feição numa expressão séria e distante.  
 Ouço os dois acenderem seus cigarros também e eles se aproximam de mim. Edgard senta a minha frente, em uma pilha de pneus, Oscar passa por mim e para de pé à minha direita. 
 — Eu não sabia que o velho Chucky tinha uma filha. — Diz ele em um tom animado. 
 — Duas. — Trago olhando para ele de relance e desviando para o terreno que se estende a minha frente. 
 — Duas! Qual o nome da outra? 
 — Leslie. — Sorrio de um jeito macio, involuntariamente, com a imagem de Lilie em minha mente. — Ela é mais nova. 
 Edgard me olha com um ar superficialmente pensativo, talvez tentando imaginar o "velho Chucky" pai de duas menininhas. Ele sorri e suas sobrancelhas erguidas enrugam a testa. — Vocês moram por aqui? 
 — Tudo bem se eu puxar essa lata pra cá? — Aponto para uma lata de tinta atrás de mim. Ele faz um gesto de indiferença com a cabeça. Eu arrasto a lata e sento. — Leslie mora em Nova York, com nossa mãe. 
 — E você? — Oscar me indaga. 
 Ergo as sobrancelhas, torcendo a boca para um lado, brevemente, em uma expressão de desprendimento. — Minha casa é o meu corpo. 
 Por algum motivo eles riem. — Certo. — Diz Edgard expelindo fumaça. 
 Atrás de nós os rapazes continuam com sua conversa e o tilintar de ferramenta, ouve-se algumas risadas soltas. Olho para os meus sapatos, sentada com as pernas afastadas e os cotovelos apoiados nos joelhos.  O coque do meu cabelo pende e se desfaz, os fios se espalham em uma cortina preta. Ficamos quietos fumando e sentindo o ar da chegada da noite. Não quebro o silêncio, ergo a cabeça e passo uma mão pelo cabelo para trás, estico as pernas e trago meu cigarro.  
 — Aê, pai! Anderson deixou a chave do carro com você? — Um dos mecânicos exclama a um carro de distancia de nós. É bem novo, cabelo escuro cortado a maquina, as mangas do coletes rasgadas, a pele do rosto e braços oleosa. E que rosto, uma delicinha, lábios bem rosados e as feições suaves de garoto viril.  
 Oscar murmura alguma coisa apalpando os bolsos e pega um par de chaves. O garoto se aproxima de nós estendendo as mãos para agarrar, lança um olhar direto e marcante para mim e se retira. Eu estreito os olhos, minimamente, sem esboçar reação e presto atenção às outras vozes lá atrás.  Palavras soltas e abafadas. Descarto a guimba do meu cigarro. Olho para os coroas e eles olham de volta para mim. Eu estou muito confortável, olho para o alto, o céu e em volta. 
 — Olhou as coisas do seu pai? — A voz de Edgard soa inesperadamente. Eu começava a me distrair com meus pensamentos. 
 Volto o rosto para ele e confirmo. — Roupas velhas, peças mecânicas e garrafas de bebida. 
 — Aquelas peças valem uma grana, garota. — Oscar sorri com ar esperto, sorrio de volta. 
 — Podemos te ajudar a separar o que presta depois. — Edgard se levanta apoiando as mãos nos joelhos, o olhar a frente, sigo o foco e vejo que um dos rapazes se aproxima. — Nunca mexemos naquelas caixas desde que Chucky caiu fora, mas ele gostava de customização, desmontava e remontava tudo, tinha uma porrada de coisas. Edgard leva as mãos ao cós da calça e espera o rapaz se achegar.  
 Esse mecânico é mais velho, totalmente maduro e evoluído. Alto, louro de olhos claros e mãos grandes, reparo nelas porque seguram caixas de pizza e uma mala de cerveja. Ele se aproxima de nós, passa as cervejas para Edgard e olha para mim, me cumprimenta com um aceno de cabeça e um sorriso muito simpático. 
 — Oi. Falo meneando a cabeça. Ele me estende a mão então levanto. — Sou LuAnn. 
 — William. — A voz máscula e jovem me soa muito agradável enquanto sinto sua mão enorme e áspera apertar a minha e olho seu rosto sardento. Em seu cabelo cortado a máquina tem algumas manchas de óleo, acho bonito.  
 — Esse é o meu filho. — Edgard fala com um tom orgulhoso e despreocupado. Oferece-me uma lata de cerveja e dá um gole da dele. — Aquele ali é o Lue, meu sobrinho. 
 O garoto que havia perguntado das chaves se aproxima com outros dois caras. Lue certamente tem a minha idade, dezoito, e não é nenhum menino, tem os músculos firmes e definidos, uma boa estatura, mais alto que eu. Comparado a ele o loirão devia ter uns vinte e sete, vinte e oito.  
 Os três recém-chegados olham para mim com um ar meio sorridente. 
 — Mais gelada! — Um dos acompanhantes de Lue ergue duas malas de cerveja, eles se aproximam e colocam mais caixas de pizza sobre a bancada de ferramentas. 
 — Digam olá à LuAnn, rapazes! — Oscar passa por eles em direção às pizzas, os rapazes olham para mim sorrindo. 
 Um regula a mesma idade de William, é de estatura mediana, tem o cabelo liso castanho e cumprido preso em um rabo-de-cavalo na nuca e usa barba. É do tipo magro com músculos firmes. — Oi, LuAnn, sou Álvaro. — Sorri inclinando um pouco a cabeça, e abre uma lata de cerveja.  
 O outro parece mais novo que Álvaro mas não tanto quanto Lue, cabelo preto bagunçado, brinco nas orelhas, olhos um pouco puxados, meio felino, mais musculoso. Olhando para os quatro no cenário como um todo, deixando os coroas de fora, eu os vejo pelados, suados e sorridentes me chamando para uma orgia no capô de um daqueles carros.  Sinto um sussurro sopra no meu ouvido direito , um sorriso malicioso interno, quase rio alto. Mas ao invés disso dou um gole da minha cerveja, uma delícia, e digo oi depois que ele diz o nome dele: Jean. 
 Todos mastigam pizza. Ninguém disfarça o apetite, dando grandes mordidas e terminando os pedaços rapidamente. Depois que acalmamos a urgência do estômago William olha para mim e pergunta: 
 — O seu é o fusca conversível?  
 — Tenho cara de quem tem um fusca conversível? 
 Ele balança os ombros bem humorado. 
 — Não. — Sorrio. — Não sou cliente. 
  — Está perdida? Ou é nova na vizinhança e veio se apresentar? — Lue mira os olhos castanhos em mim com aquela mesma força, eu sinto a coisa. 
 Dou uma risada curta e mordo a pizza. — Sou filha de um velho amigo dos pais de vocês. 
 Eles olham para Earl e Edgard. — Chucky. — Edgard fala. — Vocês não chegaram a conhecer, mas William deve lembrar. 
  William concorda com a cabeça. — Sim, ele trabalhava aqui com você há uns anos. 
 — Ele deixou uma Chopper pra LuAnn, temos que checar se está tudo dentro dos conformes antes de deixar ela sair daqui.  
 Os rapazes concordam. — Onde está? Pergunta Álvaro, o de barba e rabo-de-cavalo. 
 — Num dos contêineres. — Oscar responde. 
 — Sabe pilotar? — Os brincos nas orelhas de Jean brilham como o olhar zombeteiro que ele lança para mim. 
 — Não. 
 — Vai fazer o que com ela? Você pode arranjar uma boa grana, é um modelo clássico. 
 — O que eu vou fazer com ela? — Dou uma risada seca de desdém. — Pilotar, meu amor. Não preciso de dinheiro. 
 Jean dá uma risada, nada ofendido e concorda com a cabeça com um gesto vigoroso. — Isso aí! 
 — Haha haha... Oscar leva a mão à barriga. — Essa garota! 
 — Seu pai está na cidade? — William me pergunta, se levantando da escada dobrável em que está e se aproximando de mim, eu estou sentada na bancada, ao lado de uma caixa de pizza. Ele pega uma fatia e recosta ao meu lado. 
 — Não. Vim sozinha. 
 — De onde? — Indaga Lue com aquele olhar. 
 — Originalmente? Nova York. A última parada? Lincoln, Dakota do sul. 
 — Essa moto vai lhe ser útil, filha. — Edgard sorri. 
 Eu concordo com a cabeça — É, vai... — murmuro, distanciando-me mental e até fisicamente, sendo tomada pela necessidade de correr, de apenas levantar e sair por aí... A moto será mais que útil. — Já tive alguns carros. — Roubados, acrescento em pensamento. 
 — Você é nova, LuAnn, pra sair por aí assim. — Oscar uni um pouco as sobrancelhas. — O que você procura? 
 — Não procuro por alguma coisa, e sei me cuidar.  — Sorrio para ele. Eles não me conhecem, não sabem nada a meu respeito, não tem ideia.  
 — Vamos dar uma olhada na máquina então. — Edgard levanta do banquinho de madeira e começa a andar, indo em direção ao terreno nos fundos, nós o seguimos. 
  Lue acende um cigarro, andando a minha direita, olho para ele e ele me oferece um trago, aceito com um olhar risonho. Oscar e William erguem a porta do contêiner. Admiro a bunda de William quando ele dobra os joelhos e os braços fortes quando ele solta a porta no alto. Álvaro, o de rabo-de-cavalo acende a luz e assovia quando vê a Chopper, os outros concordam. 
 — Está muito conservada, intacta, na verdade. — William agacha a minha frente, olhando os pneus e motor. — Uma troca de óleo, talvez regulagem de freio e uma checagem no motor pra garantir. Podemos fazer isso agora. — Olha para mim e pela primeira vez eu vejo que seus olhos não são apenas claros, mas azuis da cor do céu. 
 — Não precisa ter pressa. Vocês acabaram de largar do trabalho, pode ser amanhã. 
 — Por nós está de boa, gata. — Álvaro balança os ombros. 
 Olho para Jean e Lue, eles concordam, Edgard e Oscar dão de ombros com um sorriso.  
 — OK, então. — Falo. 
 — Certo. — William enruga um pouco a testa unindo as sobrancelhas. — Lue vai lá na oficina pegar as ferramentas, Jean, Álvaro me ajuda a abrir o caminho aqui. — Eles começaram a afastar as caixas envolta da moto e levantar panos. 
 Edgard me chama para o canto com um toque no ombro, Oscar observa com as mãos nos bolsos da bermuda. 
 — Foi uma grande surpresa você aparecer aqui. — Diz Edgard olhando em meu rosto, uma mão no meu ombro esquerdo. — Chucky é um irmão. Você sendo filha dele é da família, vamos te ajudar no que precisar. Fique aqui esta noite. Vou pra casa pedir pra mulher preparar um quarto pra você, eu insisto. Te daríamos uma carona até o centro, mas acho que você não está hospedada em nenhum lugar, está?  
 Eu inclino a cabeça para um lado, como se dizendo que é óbvio. Edgard sorri. — Mesmo que estivesse eu não permitiria, você é bem-vinda. Quando acabarem aqui meu filho vai te acompanhar até nossa casa, então. 
 — Muito obrigada, Edgard. 
— Não precisa. — Ele tira a mão do meu ombro e sai andando. — Não demorem tanto garotos, ainda temos o dia de amanhã! 
 Lue volta trazendo uma maleta pequena e se junta aos outros, Oscar nos lança mais um olhar e acompanha o irmão. 
  Os quatro caras rodeiam a moto e começam a mexer e a falar entre si. Minha mente se recolhe, me distancio do momento. Com as mãos nos bolsos traseiros da calça viro o rosto para o lado, de onde me vem o sussurro. Ouço o silêncio da noite, ergo o olhar para a o céu escuro, e então ouço os sussurros noturnos chamando pelo meu nome outa vez, fazendo gracejo. Um sopro gelado no meu ouvido. Olho ao redor, fixamente, encaro. Está bem ali, no escuro, eu o sinto mas não consigo ver. Corro os olhos pelos fundos do galpão e giro 360 gruas até voltar ao rapazes, suas vozes se tornam claras de novo. Há um problema com vazamento de óleo, e eles tiram algumas peças, isso leva alguns minutos, fico observando. 
 — Vamos continuar amanhã. — Álvaro fica de pé. — A gente tem que ver dentro desses caixotes, e comprar as outras paradas, mano.  
 — Vou soldar pra não ter mais esse problema. — William mexe e gira uma peça nas mãos.  
 Jean se aproxima de mim e me entende a mão preta de graxa, o sorriso bonito brilhando como seus brincos.  — Foi um prazer, princesa. 
 Pego na mão dele e aperto com firmeza. — Princesa. 
 Ele olha para a minha mão suja de graxa e ri.  
—É, isso aí, gata! — Álvaro exclama se metendo entre nós. Damos um aperto de mão também e ele continua falando e se aproximando da moto outra vez. — É coisa simples, mas precisamos de umas paradas que não temos aqui agora, talvez tenha numa dessas caixas. Mas a gente já sabe o que fazer, amanhã te entregamos essa belezinha perfeita.  
 — Valeu. — Falo. 
 William e Lue arrumam algumas peças sobre um pedaço de papelão no chão, levantam limpando as mãos nos jeans. 
— Vamos cair fora. — Álvaro se volta para Jean que o espera alguns metros adiante. — Valeu, valeu! 
  William para ao meu lado e eu percebo o quão alto e largo ele é realmente. A presença forte, os pés firmes no chão. Fico um pouco impressionada. 
 — Bora? — Lue faz um aceno com a mão e começa a andar. 
 — Vocês moram naquela casa? — Indico adiante com o queixo, acompanhando-os à garagem. 
 — É para aquele lado, mas a casa que dá para ver daqui é a da nossa avó. — William responde. 
  Fico entre os dois rapazes no banco da picape, percorremos o caminho de terra que corta o terreno gramado e  posso ver a cerca contornando as casas. Entramos pelo portão grande de trinco que já está aberto, as casas a esquerda iluminadas e silenciosas, separadas por grandes quintais e cercas vivas baixas. 
 William passa por duas casas e para. Lue desce e segura a porta para mim, aparentemente sem maldade, eu passo por ele quase encostando o quadril na sua virilha e o ouço bater a porta. Ele andou atrás de mim por um instante, para olhar a minha bunda no jeans apertado. Contornamos a picape e paramos a frente de  William. 
 — Vou lá, mano. — Lue estende a mão para o primo. 
 — Valeu, até amanhã. 
 Lue vira para mim, o olhar envenenado de malícia. — Até amanhã. Faz um gesto com a cabeça, a boca um pouco aberta, lábios vermelhos úmidos. Até, eu falo, consciente de meu próprio ar malicioso. William parece não perceber. 
 A tarde, quando eu cheguei na oficina meu apetite latejou, enchendo minha boca d'água, Lue viu minha expressão libidinosa tão discreta e gritante, eu o despertei. Um predador reconhece outro.  Essa porra vai ser gostosa, penso enquanto acompanho William pela varanda da casa dele. 

 O hall de entrada dá direto na escada para o segundo andar, à esquerda a sala de estar, à direita a de jantar, eu ouço vozes vindo dessa direção. O ambiente cheira a lavanda e carne grelhada.  
 — Chegamos! —  William atravessa a sala de jantar e eu o sego até a cozinha. Chão de madeira escura, móveis claros, paredes cor creme.  
 Uma mulher coloca uma tigela de porcelana com filés suculentos e fumegantes sobre a mesa.  O cabelo dela é ruivo, está escuro preso em um coque alto, não é nem magra nem gorda. Edgard, sentado em um banco de madeira alto  próximo à janela, segura uma garrafa de cerveja. Falam sobre não sei o que e param quando nos veem. 
 Edgard sorri. — Essa é a LuAnn, Kim! 
 — Olá. — Eu sorrio fabricando uma expressão acanhada, parece apropriado. 
 A mulher olha bem no meu rosto, as bochechas e o nariz fino dela cheios de sardas. — Como vai? — Sorri. 
 — Bem, obrigada. Obrigada por me receber na sua casa, desculpe o incômodo. — Falo humilde. Kim dá um passo em minha direção e passa a mão pelo meu braço. 
 — Você não incomoda, querida. Sente-se. 
 Eu puxo uma cadeira e sento à mesa. Enquanto isso William pega uma cerveja e bebe, recostado na geladeira. 
 — Você deve estar cansada, Edgard disse que você veio de Nova York. Longa viagem. — Kim fala se voltando para o fogão e jogando mais filés na chapa.  
 Recosto na cadeira. — Eu até dormi no contêiner do depósito. — Falo com ar humorado, Kim ri. — Eu sou de Nova York, mas estou na estrada há vários meses, passei os últimos três em Lincoln. 
  William coloca uma garrafa de cerveja a minha frente e senta na cadeira ao meu lado. 
 — Garota da estrada. Muito corajosa. — Kim fala em um tom que julgo sincero. Eu passo o dorso da mão nos lábios molhados de bebida, William levanta dizendo que vai tomar banho e saiu. Ouço seus passos nas escadas e me vejo o seguindo e passando o braço por seus ombros.  
 Eu também gostaria de tomar banho antes de comer, depois de horas de viajem de ônibus, a caminhada sob o sol pelando, suor, poeira, depois de dormir no chão do depósito. Eles pensam que a forme é mais urgente. 
 — Meu pai me deu as coordenadas daqui, me deixou a moto dele. — Conto à minha anfitriã mesmo sabendo que Edgard já falou, é conveniente manter a conversa. 
 — Tudo que você precisa, garota. Agora ninguém te segura, han? — Kim dá uma risada, e eu sorrio por ela não duvidar que eu posso pilotar.  Tenho a clara percepção que ela não é uma otária de mente mesquinha. 
 Edgard me observa com olhar discreto, despreocupado. Ele levanta do banco e vem sentar à mesa, na cabeceira, à minha direita. Aí eu reparo a mesa. Uma panela de batatas assadas com pedaços de bacon, salada, uma jarra de suco amarelo.  Meu estômago ronca. 
 — Eu viajei muito quando era mais nova. — Kim olha para Edgard.  
 — Eu também tenho uma Harley. — Ele diz. 
 — Qual modelo? — Eu pergunto. 
 — FSX Low. 
 Eu concordo com a cabeça mas não tenho ideia de qual modelo seja. — Ainda pilota? 
 — Menos que antes, menos do que gostaria, só umas voltas. 
 — Porque não quer! Eu não prendo ninguém. — Com um ombro e as sobrancelhas erguidas Kim trás mais filés à mesa. Edgard só começa servir o próprio prato e faz sinal para que eu me sirva também.  
 Kim pega quatro garrafas de cerveja na geladeira e senta, começamos a mastigar e ficamos em silêncio por um momento. 
 — O que os garotos disseram da moto?  
 Olho para Edgard, uma mecha do cabelo loiro cai enquanto ele corta o bife. 
 — Vazamento de óleo, vão soldar. 
 — Hm. William é muito chato com isso, ele vai deixar apenas o suficiente pro motor respirar. 
 Levo uma garfada de batas à boca. 
 — Você vai precisar aprender umas coisas básicas pra se virar por aí, não quero que te passem a perna. Um pneu pode furar, algum problema com motor, freio, amortecedores, nunca se sabe. Tem que fazer manutenção, sempre.  
 William volta e senta ao meu lado outra vez, o jantar segue com conversa banal, e eu fico sabendo o tipo de homem que William é. Ele fala sobre serviços concluídos, contas pagas, contas a pagar, responsabilidades cumpridas. Não é chato, eu gosto de ouvir a voz máscula jovial. 
 Eles são uma família muito ocupada com seus negócios. William um cara responsável que chega junto com a família, educado e respeitoso. Passa-me a pinça para pegar batatas, aproxima a panela do meu prato, depois se oferece para levar minha mochila até o quarto. Gentilezas comuns a um anfitrião, ou supostamente a um homem, mas William é naturalmente atencioso. Eu não estou acostumada a isso, não sou assim.  
 Cumprimento e agradeço a Edgard e Kim e sigo Wiliiam. Minha visão é tomada por um vermelho sangue, minha cabeça fica quente, enquanto eu ando pelo corredor e subo a escada atrás dele. As costas largas na camisa verde escuro, a bunda e as coxas no jeans velho, comprimo os lábios. 
 No alto da escada há um hall com uma mesinha decorada por um vaso de flores brancas e um espelho emoldurado na parede. No corredor largo, passamos pela primeira porta, à direita, William diz que é o quarto dele; dois passos a diante o banheiro entreaberto; mais sete passos e uma  porta dupla a direita. 
 — Sala de leitura, visitas, café... ou whisky. — Sorri suave parando tempo suficiente para eu dar uma espiada. É uma sala espaçosa, com móveis antigos, tapete vermelho escuro e prateleiras com cristais. Há mais três portas no corredor adiante, William abre uma delas. —Esse é o quarto que você vai ficar. 
 — Obrigada, William. — Pego minha mochila da mão dele e paro no batente da porta. 
 — Qualquer coisa que precisar bata a minha porta. 
 Eu concordo com a cabeça, um riso secreto, será que ele tem ideia do que está sugerindo? 

 Entro no quarto, acendo a luz e fecho a porta. A cama de casal no centro, uma janela posicionada na cabeceira, dois criados-mudos, uma poltrona a direita, um armário de madeira a esquerda, o chão escuro. Sento na cama largando a mochila aos meus pés, abro o bolso lateral e pego a carteira de Camel, o estojo de isqueiros, escolho o do Nirvana e acendo um cigarro. Procuro pelo saquinho de cocaína entre os isqueiros, coloco no bolso. 
 Fumo o cigarro até o final e levanto, carregando a mochila até o armário. Não arrumo minhas coisas nas gavetas, apenas pego uma muda de roupas limpas e penduro a mochila em um cabide. Sobre a cama Kim deixou duas toalhas limpas, as pego e saio no corredor. Ouço a televisão lá embaixo. 
 Estico uma carreira fina de coca sobre o mármore da pia e inalo, sinto subir pelas narinas, passar pelos olhos e atingir minha cabeça, uma pancada metálica. E o prazer escorre pelo meu corpo.  
 Tomo banho frio, não demoro, escovo os dentes, limpo a pia e vou para o quarto vestindo o outro short jeans e uma das camisetas de alça fina. Não estou mais com sono, e a familiar inquietação da noite, como sempre, se acomoda no centro do meu peito. Um deleite quase sexual pelo ar noturno, fresco e misterioso, pelo silêncio das horas escuras. Os sussurros maliciosos e convidativos me seduzindo, me chamando, me chamando, a atração que sinto faz o ritmo da minha respiração ficar mais lento.  
 Então tiro o short e trepo na janela, só de calcinha e camiseta. O ar frio da noite me envolve, me sinto muito bem, plenamente feliz. O terreno se estende por muitos hectares gramados planos e alguns relevos não muito altos, a noite eu não posso distinguir se são mais próximos ou distantes. Não cheirei muito, a onda da coca não é tão alta, eu me sinto leve, com a mente aguçada. Seguro na moldura da janela e fico pendurada em uma mão, em um pé, os outros pendendo no ar, balançando, balançando. Meus olhos deslizam pela escuridão. 
 Começo a pensar em meu pai. Ele me mandou aqui porque sabia no que eu me tornaria. De alguma forma ele sabia. Ou esperava que fosse assim. Porque eu me lembro claramente de suas palavras antes dele ir cair fora. 
 "Eu sei que você é forte, use essa força. E não aceite tudo que te disserem, não se você ver que é ruim pra você, que não é o que você quer. Entendeu?" Eu concordara vigorosamente, a maneira que ele falou foi intensa, seus olhos profundos nos meus me assustaram. "Você saberá o que é certo pra você." E então ele me entregou o pedaço de papel com as coordenadas e disse para eu guardar com muito cuidado, para não deixar ninguém pegar, não dar a ninguém. Foi o que fiz. 
 Penso que meu pai viu em mim o que havia nele, ele reconheceu. E me deu uma direção. 
 E outro pensamento desagradável passa pela minha cabeça, percebo o significado de suas palavras, para ele a nossa família não era o que ele queria, por isso foi embora. 
 Essa fome pelo desconhecido, o impulso incontrolável em busca pela liberdade que me deixa tão estarrecida que eu não consigo se quer pensar a respeito. Eu não consigo conter, eu não quero. E isso me inquieta, ardendo em minha mente como o fogo do inferno. Eu não entendo, não poderia, e nem quero. Não indagamos de onde vem e porque das inclinações bondosas, por que o fazer com as más? Assim que eu sou, e ponto. 
 Satisfazer. É o único pensamento. 
 A onda da coca começa a extinguir muito rápido, de em pé no peitoril da janela, pendurada pelas pontas dos dedos olho os hectares de terra. Encaro a noite escura por muito tempo, há muito que ver, mas não com os olhos da cara, além, no profundo da noite, e eu olho por muito tempo, e ela olha de volta para mim. 

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