segunda-feira, 23 de novembro de 2015

LuAnn chega à Cidade Pedras de Fogo



   A Cidade fogosa

 ”Quando você olha muito tempo para um abismo,
o abismo olha para você.”
Friedrich Nietzsche,  Para além do Bem e do Mal.


Eu estou com um calor do caralho, esse é o último ponto, desço do ônibus e procuro por alguma placa ao redor.  
  — Vai reto, garota! No fim da rua! — O motorista grita da janela enquanto faz o retorno.  
 A placa no poste diz: Cidade Pedras de Fogo a 1km. Puta que pariu, se o ônibus deixa até aqui porque não andar mais um  quilômetro? Olho adiante, a estrada parece muito mais longa do que mil metros, e com certeza a caminhada debaixo dessa lua vai esticá-la em dez vezes. Montanhas vermelhas e pontudas, secas e poeirentas ladeiam o asfalto, em contraste com o azul intenso do céu. Não há nada além disso. O ar tremula à minha frente, começo a andar e meus pés queimam e suam dentro das botas, o calor sobe pelo corpo todo e me envolve em uma bolha ondulante sufocante.
Mudo a alça da mochila de um ombro pra outro várias vezes, minha roupa tá ensopada, suor escorrer até na minha bunda.  Sinto fome, tô acostumada com ela, mas a sede quase me mata, caminho em ritmo constante com um único objetivo; matar ela. Até acho a paisagem bonita, mas tô puta demais pra apreciá-la. Ando reto por uns dez minutos, o silêncio é total, meus passos no asfalto poeirento são secos, uma águia paira sobre mim e voa alto. Entro uma curva larga e o primeiro sinal de vida que vejo é um boi. Pastando solitário e triste, no meio de alguns arbustos secos. Depois, ao virar na curva o cenário muda completamente,  me deparo com um conjunto de casas ao longe, no declínio da estrada, do lado direito, uma espécie de vila, situada junto a um vasto descampado, e a minha frente, apenas uns metros adiante, o portal da cidade. Um arco alto de concreto com a placa centralizada que diz: Bem-vindo à Cidade Pedras de Fogo.
Atravesso o portal, o mato seco que ladeia a rua é substituído pela grama verde de um canteiro que se estende por alguns metros, há uma fileira de hastes com as bandeiras do país, do estado e da cidade fincados nele. Um cachorro-quente gigante se destaca contra o céu, o outdoor neon de uma lanchonete. À esquerda, prédios provincianos de três e quatro andares ao longo da rua acabam na esquina do próximo quarteirão, ao longe, vejo outras construções com aspecto semelhante.  Fiações cruzam o céu numa teia conectada a torres altas.
  Ando pela calçada direita até o estacionamento de um mercado, paro e observo. A rua se alarga em um cruzamento amplo, dividindo o espaço em quarteirões, então eu vejo casas de dois andares com telhados vermelhos e lojas entre árvores bem verdes, um posto de gasolina, restaurante. Há arbustos floridos ao longo das calçadas, árvores e montanhas rodeiam o panorama como pano de fundo. Poucas pessoas e poucos carros circulam.  
Compro uma garrafa de água no mercado e enquanto bebo pego o pedaço de papel com as coordenadas e as minhas anotações. 32° 27' 13" N 100° 27' 8.  Centro do cruzamento, 3 quarteirões a leste, Rua 27, 8 quarteirões a oeste, Candy, Rua Luz do Sol, nº 4.
 — Certo. Tô no centro do cruzamento. — Ergo os olhos do papel e caminho pro centro do cruzamento. Puxo o último cigarro do maço no bolso lateral da mochila, atravessando a rua. E com o sol batendo na cara, adentro a cidade.
  Ando por quarteirões até um ponto de ônibus, pego um que vai me deixar bem perto do destino. Ele passa por vizinhanças bonitas e bem cuidadas, mas quanto mais avanço pelas ruas mais a fachada de cidade se desmancha e as coisas parecem mais reais. Os arbustos se tornam mais desbotados, comércios e casas intercalam com ruas cinzentas de concreto sisudo, largas e de aspecto pacato. Vejo essa oscilação entre o urbano sujo e a cidade bem cuidada de aspecto antigo pela janela do ônibus por uns dez minutos. Desço na Rua Vinte e Sete de Novembro, a partir daqui é a pé.
Paro numa loja pra comprar cigarros e peço informação, oito esquinas depois me vejo numa rua larga aparentemente abandonada. À esquerda, uma espécie de estacionamento com dois carros velhos, grade de arame e muro baixo. À direita, três prédios ao longo da calçada com fachadas descascadas e pichadas. Capim cresce das rachaduras no asfalto. Acendo outro cigarro e sigo até o final da rua, olho pras fachada dos prédios, o primeiro não tem placa ou numeração mas o segundo, aparentemente uma antiga loja de doces, pintado de rosa claro sob tantos grafites, tem a palavra Candy pendendo em um letreiro de metal. Ao lado dele um poste com a placa Rua Luz do Sol aponta pra esquerda. 
 Viro o rosto e me vejo diante de um portão de ferro grande escancarado. Do lado de dentro pilhas de sucata passam a altura do muro, o terreno parece ser grande, dos dois lados os muros muito extensos. Vou em frente. O asfalto acaba e piso no chão poeirento de terra do outro lado do portão, o caminho é ladeado por pilhas de ferro velho. Depois delas passo por um trator a minha direita, e por trás dele vejo fileiras, conto cinco, com dezenas de carros, todos de cinco ou vinte anos atrás. O cheiro é de graxa, ferrugem, óleo e gasolina. Tudo isso irradia um calor insuportável. Mais adiante, ainda à direita, há uma garagem cimentada com três caminhões em bom estado, ao lado um grande galpão de metal repleto de caixas e galões enormes. À minha esquerda apenas o amontoado de sucata. 
  Vou em direção ao estabelecimento à minha frente, alcanço o chão cimentado sob a tapagem de laje e enxugo o suor do rosto.  Um pátio com duas mesas e bancos compridos de concreto, uma caminhonete preta estacionada no canto. O estabelecimento é pintado de preto também e há apenas uma janela pequena e uma porta estreita de madeira pintada de marrom. Ela está aberta, mas não há ninguém à vista, bato e espero. 
  Ninguém atende, olho ao redor e não avisto nenhum movimento, só ferrugens queimando ao sol. Bato outra vez, fazendo mais barulho, e espero. 
 — Não tem ninguém aqui, porra? — Murmuro, e um cara aparece na hora. Alto e barrigudo, cabelo claro, pele bronzeada, vestindo calça e colete jeans surrados e sujos. 
— É do outro lado! — Aponta pra lateral. 
  — Preciso de uma informação. — Trago o cigarro, olhando fixamente pra ele, pés firmes no chão, ombros erguidos. Ele me examina de cima a baixo. — O senhor é o dono daqui? 
— Depende de quem quer saber. 
— Meu nome é LuAnn. 
— Eu sou Oscar. Em que posso te ajudar, LuAnn? 
— Meu pai me deu o endereço daqui, o nome dele é Charles, conhece?
Ele faz um meneio com a cabeça. — Veio buscar algum carro?
Uma gota de suor escorre do meu couro cabeludo e desce pela bochecha, sinto outra escorrer entre meus peitos. — Não. Ele não tá aí?
 Ele ergue os ombros. — Dá a volta, vou ver o que posso fazer. 
 Sopro fumaça e contorno o estabelecimento. O pátio da frente também é cimentado, com fileiras de carros em melhor estado à venda. O portão de entrada é de ferro e grande igual ao o dos fundos. Subo os degraus da varanda, recosto numa das colunas e observo os automóveis brilhando ao sol. Ouço vozes e viro o rosto pra direita, alguns mecânicos trabalhando na oficina adiante.  
 — Olá. — Um homem alto e forte, bronzeado de aspecto engraxado, aparece a porta. É coroa como o outro, meio loiro também, mas seu cabelo é farto e comprido na altura do queixo, penteado pra trás. Veste jeans sujos e uma camisa preta gasta. 
 — Oi, sou LuAnn. — Alinho a postura. 
 — Oscar me disse. Eu sou o Edgard. — Estende a mão pra mim. — Aceita uma água? 
  Trocamos um aperto de mão firme. — Cairia bem, obrigada.
 — Vem comigo, lá atrás tem mais sombra.
Eu o acompanho até o pátio de trás e espero sentada num dos bancos de concreto enquanto ele vai buscar a água.  Trago o cigarro e olho em volta, imaginando se estou no lugar certo, indagando qual era a do meu pai em me dar esse endereço.
O Edgard surge pela porta estreita segurando duas garrafas d’água. — Então, alguém te deu o endereço daqui?
  — Meu pai. — Bebo um pouco da água. — Eu nem tenho certeza se tô no lugar certo. Há muito tempo ele me deu um pedaço de papel com esse endereço. Meu nome é LuAnn Cowell, meu pai Charles Cowell. — Eu não tinha olhado em volta a procura de um rosto familiar, mas nesse momento me ocorre outra vez que talvez meu pai tenha me dado o endereço do lugar pra onde partiu. Por um instante imagino ele aparecendo por aquela porta.  Olho bem nos olhos azuis de Edgard aguardando resposta.
— Ele não disse nada ao te dar o endereço daqui?
— Não.
Ele fica em silêncio por um instante. 
— Não sei como posso te ajudar, posso conferir se tem algum veículo no seu nome ou no dele…
— O lance é o seguinte: ele só me deu o endereço daqui, sem explicar nada, quando saiu de casa. Imaginei que ele estivesse aqui.
  — Você tem uma foto?  Do seu pai.
 Puxo a mochila sobre a mesa e pego minha carteira. — Não tenho uma foto mais recente porque ele caiu fora quando eu tinha cinco anos. Você conhece ele? 
  Edgard olha a foto e algo atravessa seu olhar. — Sim, conheço. — Ele diz fazendo um gesto positivo com a cabeça devagar, eu uno um pouco as sobrancelhas. — Chucky. Velho e bom amigo, trabalhou aqui por um tempo. 
 — Trabalhou? Ele não está mais aqui? 
 — Não. Ele foi pra São José e acabou casando, com sua mãe suponho. — Sorri um pouco. 
 — É. 
 — Não voltou mais aqui por uns anos. 
 — Cinco, talvez? — Arqueio uma sobrancelha. 
  Edgard comprime os lábios brevemente e me observa. — É, acho que foi mais ou menos isso. 
 — Então depois que ele nos deixou ainda esteve aqui… Sabe onde ele está? Pergunto despreocupada.
  Edgard sorri levemente, mas ainda assim áspero, reparo as rugas e a espessura seca de sua pele queimada. — Não sei. Ele voltou depois desses cinco anos, não falou muito sobre o que tinha feito durante esse tempo, passou só algumas semanas e foi embora sem dizer pra onde. Isso já tem anos… Faz tempo que não nos vemos.
A cinza do cigarro dele faz uma curva, o fumo queimando pendurado entre os dedos. Eu trago o meu, fitando a mesa de concreto. Viagem perdida. Isso aqui num vai dar em nada. Estou prestes a levantar e cair fora quando ele diz:
— Chucky disse que você viria.
Eu o encaro.
— Hmm… Quando foi embora deixou umas coisas aqui, falou que talvez uma garota viesse procurar por ele. Eu achei que fosse uma namorada, não filha. Isso faz tanto tempo que eu nem esperava que alguém viesse. Chucky disse pra entregar as coisas dele que ficaram aqui.
Eu não falo nada, não tenho nada a dizer.  Mantenho a expressão impassível.
— Você ainda estuda?
— Não.
Bom, o que ele deixou pode dar uma ajuda pra faculdade, ou no que precisar.
— Hm.
— Vou pegar as chaves do depósito. — Observo-o entrar pela porta estreita outra vez e acendo outro cigarro. 
Passam-se alguns minutos, Edgard volta e me estende uma fotografia dizendo com certo tom de nostalgia — Chucky, velho amigo. 
 Eu levanto, jogo a mochila no ombro e olho a foto. Três homens sentados nos degraus da entrada de alguma casa, uma versão um pouco mais nova do que a lembrança que eu tenho do meu pai, Edgard e o tal do Oscar segurando garrafas de cerveja e cigarros, as bocas abertas de riso e os olhos brilhantes de embriaguez. Velhos amigos. 
— Isso foi antes ou depois?
— De que?
— De mim.
— Acho que antes.
Devolvo a foto a ele e o sigo. Passamos pelos caminhões e pelo galpão, olho ao redor e vejo que há mais uma porrada de ferro velho atrás daquela primeira pilha, apesar disso a coisa é limpa e organizada, só um monte de lataria amontoada. 
— O que espera encontrar? 
 — Um carro velho. 
 Ele dá uma risada. — Vamos ver, vamos ver.  Como você veio pra cá? 
 — Ônibus. Carona. 
 — E de onde veio? 
 — De longe. 
O terreno é de fato muito grande, atravessamos um espaço grande de terra até uma fileira de contêineres.  Edgard para em frente a um vermelho, agacha, destranca e sobe a porta de ferro. Ele entra no contêiner, de início não vejo nada, a contra luz deixa o interior escuro. Me aproximo e Edgard acende a luz. Há caixas de papelão, caixotes e volumes cobertos por panos e sacos pretos. 
 — Está aqui. — Edgard indica um dos volumes coberto por saco preto. — Puxa desse lado aí. 
 Dou a volta até a extremidade esquerda e seguro o plástico empoeirado. Eu não tenho ideia. Puxamos a porra do plástico e a porra de um guidom aparece, depois um acento foda de couro e meu coração para. Conheço muito bem o modelo, só de olhar o tanque de óleo em forma de gota. A porra de uma Chopper!  
  — Aí! — Edgard faz um gesto com as mãos, sorrindo pra mim.  
  — Por que você acha eu que vou vender isso? Porra, eu vou é pilotar!
  Ele continua sorrindo. — Toda sua. 
  Olho pra ele. — Era dele?  Ele disse que isso era pra mim? 
  — Chucky te deu o endereço daqui, não deu? Ele disse pra entregar as coisas dele a garota que viesse procurá-lo.
  Tenciono meu maxilar e uno minhas sobrancelhas, com os olhos cerrados ergo o queixo numa expressão altiva de desconfiança. Foda-se, se ele deixou pra mim ou não, eu estou nem aí. A moto já é minha.  
— Era dele sim, Chucky gostava de customização e essas coisas, ele também era muito bom em pintura, desenhos...
 De braços cruzados e olhos cerrados, eu encaro a moto. No fundo do meu coração semi-endurecido e obscuro eu me sinto contrariada e puta pra caralho. Eu nunca soube por que meu pai nos deixou, nunca entendi o que aconteceu, não tinha ideia pra onde ele teria ido. Eu não sabia nem em que ele trabalhava, até hoje, de onde veio, como cresceu. As lembranças que tenho são tão claras quanto incompletas, eu tenho a memória de sua voz e presença muito fortes mas não é o suficiente pra juntar as peças da imagem de um pai, pra conhecê-lo. E agora eu estou aqui, pra onde ele veio depois de nos deixar, herdando uma porra de moto que eu nem sabia que ele tinha. E ele não está aqui.
 — ...problema damos um jeito. — Edgard fala. 
 — O quê? 
  — Faz tempo que não dou uma conferida nela, mas se tiver algum problema damos um jeito. Sabe pilotar? 
 Balanço a cabeça devagar em negativa, percebo vagamente que minha expressão fechou. Posso ver a minha imagem rígida e obscura como se assistisse de fora.  
  — O resto é ferramenta, peças, alguns objetos pessoais, eu acho. Ah, tem umas garrafas de whisky e rum também, Chucky gostava. — Edgard acende um cigarro e olha em volta, mexendo em algumas coisas por cima. — Vou deixar você a vontade, qualquer coisa estou na oficina. Lembra o caminho?
— Aham. Olho em volta, esqueço do meu pai e admiro a Chopper, tendo vários orgasmos. Na estrada, a céu aberto, o céu azul, livre, pra onde eu quiser, fácil e veloz. Puta que pariu. A sensação de excitação me faz arrepiar. Percorro os dedos pelo acento baixo, pelo guidom prateado alto cravado de caveiras, as tiras de couro pendendo dele, o retrovisor redondo. O corpo da moto é preto reluzente e o metal prateado.
 Não posso evitar e sem querer visualizo Chucky sentado nela. Não o meu pai Charles, mas um homem que não tenho ideia de quem foi. E então me lembro da imagem do homem de cabelos escuros aos ombros, lembro dele brincando comigo no sofá, a voz grave falando coisas engraçadas, o abraço seguro.
Eu sempre achei que conhecia uma parte dele, que ele me mostrara um lado seu que nem mesmo a minha mãe vira, porque  falava baixo como se fosse segredo e muitas vezes se calava quando ela se aproximava. Ele desabafava comigo, falava sobre sua maneira de ver as coisas, me avisava sobre os perigos e as pessoas. Sentada em seus joelhos nos degraus em frente de casa, a guimba de seu cigarro  era um ponto de luz na semi escuridão da noite. A fumaça me incomodava mas sua voz me acalentava. Ele chegava do trabalho, pegava o café na cozinha, acendia um cigarro, me colocava em seu colo e brincava comigo. Ás vezes me assustava, porque algumas vezes ele era sombrio. Eu sentia que tínhamos uma ligação e que não importava se ele teve que ir embora, porque eu sabia que estávamos ligados.  Era no que eu acreditava.
Meu pai e eu éramos muito próximos, tão pequena, sem experiência e contato com o mundo, ele era tudo pra mim, meu amigo. Hoje eu não sei de nada, não penso nada, não acho nada. Ocorre-me agora que ele sabia quem eu era e quem eu ainda seria. E me pergunto, se foi por isso que me deixou a moto, se ele sabia que meu espírito é estranho e um dia eu partiria, igual a ele. 
 Jogo a mochila no chão e acendo um cigarro, levanto os outros panos e plásticos, olho dentro das caixas. Peças de roupas, jeans, camisas e casacos, a maioria gasta ou suja de graxa, alguns sapatos de couro velhos, peças e ferramentas mecânicas, garrafas de bebida. Nada revelador, nada pessoal, nenhum bilhete, nenhuma história. E isso não me afeta, viro as costas, indiferente. Já se passou muito tempo.
 Livre, correndo, muito rápido! Sorrio comigo mesma pegando minha mochila no chão, saio e fecho o container.  Sento à sombra recostada na porta e arranco os sapatos, sinto uma brisa fresca, o chulé sobe forte. Me vendo correndo livre pela estrada, deito e apago num sono tranquilo.  
  Quando acordo a luz do dia está desvanecendo. Demoro até lembrar onde estou, me calço, levanto, jogo a mochila no ombro e vou em direção à oficina. Sempre olhando ao que está a minha volta vejo uma casa há vários metros, há algumas árvores, cercas, e vejo uma sombra se mover contra a luz do sol que se põe.  
  O pátio da frente está tranquilo, subo a soleira do avarandado e bato a porta. — Edgard, Oscar. Chamo mas não ouço nada. Desço os degraus e vou em direção à oficina, à esquerda. Por trás dos carros suspensos eu vejo os mecânicos se moverem, ouço vozes graves e música baixa, abafada. 
  Oscar e Edgard estão mais adiante, conversando em pé perto de uma bancada de ferramentas. Nas paredes, pneus, aros, correntes, bombas de ar pendurados. Observando-os juntos presto mais atenção em como são parecidos, por certo são irmãos. Altos, louros, o mesmo tom de pele clara queimada de sol, as mesmas orelhas. 
  Os rapazes mecânicos vestem um colete verde-escuro por cima de roupas comuns, trabalham tranquilos, com um ar jovial na conversa, envolvidos nas tarefas.  Me aproximo deles, uma centelha de interesse pisca em mim, ouço um sussurro de um riso interior e maldoso. Piso devagar pra que não me percebam antes que eu queira, os estudo rapidamente. São quatro. Todos entre vinte e trinta anos. Brancos. Em boa forma. Bronzeados. 
 Outro sussurro maldoso, um sorriso de lado. 
  Dou mais alguns passos e fico à vista, sinto os olhares deles em mim, um por um, não olho diretamente de início. Indo em direção aos coroas meus pensamentos obscurecem, penso no que vou fazer agora, preciso aprender a pilotar. Olho diretamente pros gostosinhos sujos de graxa e há aquela curiosidade predisposta ao sexo. Dou passos um pouco mais largos e passo por eles, Oscar ergue uma mão para mim ao me ver. 
— Não quisemos  incomodar. — Ele diz, e eu estou a mais ou menos dois metros, com um sorriso moderado  — a viagem foi longa — falo. 
 — Aposto que sim. — Oscar concorda com a cabeça. Ele tem um traço de malícia no olhar, mas não de uma maneira nojenta. 
 — Já vamos fechar. — Edgard procura pelo relógio na parede. — Pedimos pizza, fica e come com agente.  
  Nele vejo apenas gentileza e amistosidade. Olho de um pro outro. Os olhos são azuis no mesmo tom, mas o nariz de Edgard é comprido e o de Oscar mais bojudo, o formato do rosto de Edgard mais suave e o maxilar de Oscar bem marcado. O dois tem algumas tatuagens nas quais não presto muita atenção, Edgard é mais bonito e parece ser um pouco mais novo. 
 Eu estou com fome, mas finjo pensar um pouco e concordo. — Valeu. 
 Pego o maço no bolso do jeans, bato na palma da mão, puxo um cigarro com os lábios enquanto saco o isqueiro e acendo. Dou o primeiro trago, percebendo que o clima está mais fresco agora, olho pro céu, branco manchado por um tom claro de laranja. Dou o segundo trago, longamente, me sentindo em paz, sem pensamentos. Isso transparece em minha feição numa expressão séria e distante.  
 Ouço os dois acenderem seus cigarros também e eles se aproximam de mim. Edgard senta à minha frente, em uma pilha de pneus, Oscar passa por mim e para de pé à minha direita. 
 — Eu não sabia que o velho Chucky tinha uma filha. — Diz ele em um tom animado. 
 — Duas. — Trago olhando pra ele de relance e desviando pro terreno que se estende à minha frente. 
  — Duas! Qual o nome da outra? 
  — Leslie. — Sorrio de um jeito macio, involuntariamente, com a imagem de Lilie em minha mente. — Ela é mais nova. 
 Edgard me olha com um ar superficialmente pensativo, talvez tentando imaginar o "velho Chucky" pai de duas menininhas. Ele sorri e suas sobrancelhas erguidas enrugam a testa. — Vocês moram por aqui? 
  — Tudo bem se eu puxar essa lata pra cá? — Aponto para uma lata de tinta atrás de mim. Ele faz um gesto de indiferença com a cabeça. Eu arrasto a lata e sento. — Leslie. Mora em São José com nossa mãe. 
  — E você? — Oscar me indaga. 
  Ergo as sobrancelhas, torcendo a boca pro lado, brevemente, em uma expressão de desprendimento. — Minha casa é o meu corpo. 
  Por algum motivo eles riem. — Certo. — Diz Edgard expelindo fumaça. 
  Atrás de nós os rapazes continuam com sua conversa e o tilintar de ferramenta, ouve-se algumas risadas soltas. Olho pros meus sapatos, sentada com as pernas afastadas e os cotovelos apoiados nos joelhos.  O coque do meu cabelo pende e se desfaz, os fios se espalham em uma cortina preta. Ficamos quietos fumando e sentindo o ar da chegada da noite. Não quebro o silêncio, ergo a cabeça e passo uma mão pelo cabelo pra trás, estico as pernas e trago meu cigarro.  
  — Aê, pai! Anderson deixou a chave do carro com você? — Um dos mecânicos exclama a um carro de distancia de nós. É bem novo, cabelo escuro cortado a máquina, as mangas do colete rasgadas, a pele do rosto e braços oleosa. E que rosto, uma delicinha, lábios bem rosados e as feições suaves de garoto viril.  
 Oscar murmura alguma coisa apalpando os bolsos e pega um par de chaves. O garoto se aproxima de nós estendendo as mãos pra agarrar, lança um olhar direto e marcante pra mim e se retira. Eu estreito os olhos, minimamente, sem esboçar reação e presto atenção às outras vozes lá atrás.  Palavras soltas e abafadas. Descarto a guimba do meu cigarro. Olho pros coroas e eles olham de volta pra mim. Eu estou muito confortável, não tenho necessidade de falar, olho pro alto, o céu e em volta. 
 — Olhou as coisas do seu pai? — A voz de Edgard soa inesperadamente. Eu começava a me perder em meus pensamentos. 
 Volto o rosto pra ele e confirmo. — Roupas velhas, peças mecânicas e garrafas de bebida. 
 — Aquelas peças valem uma grana, garota. — Oscar sorri com ar esperto, sorrio de volta. 
 — Podemos te ajudar a separar o que presta depois. — Edgard se levanta apoiando as mãos nos joelhos, o olhar a frente. Sigo o foco e vejo que um dos rapazes se aproxima. — Nunca mexemos naquelas caixas desde que Chucky caiu fora, mas ele gostava de customização, desmontava e remontava tudo, tinha uma porrada de coisas. Edgard leva as mãos ao cós da calça e espera o rapaz se achegar.  
 Esse mecânico é mais velho, totalmente maduro e evoluído. Alto, cabelo castanho, olhos claros e mãos grandes, reparo nelas porque seguram caixas de pizza e uma mala de cerveja. Ele se aproxima de nós, passa as cervejas pra Edgard e olha pra mim, me cumprimenta com um aceno de cabeça e um sorriso muito simpático. 
 — Oi. Falo meneando a cabeça. Ele me estende a mão, então eu levanto. — Sou LuAnn. 
 — William. — A voz máscula e jovem me soa muito agradável enquanto sinto sua mão enorme e áspera apertar a minha e olho seu rosto sardento. Em seu cabelo cortado a máquina tem algumas manchas de óleo, acho bonito.  
 — Esse é o meu filho. — Edgard fala com um tom orgulhoso e despreocupado. Me oferece  uma lata de cerveja e dá um gole da dele. — Aquele ali é o Lue, meu sobrinho. 
  O garoto que havia perguntado das chaves se aproxima com outros dois caras. Lue certamente tem a minha idade, dezoito, e não é nenhum menino, tem os músculos firmes e definidos, uma boa estatura, mais alto que eu. Comparado a ele William deve ter uns vinte e sete, vinte e oito.  
 Os três recém-chegados olham pra mim com um ar meio sorridente. 
 — Mais gelada! — Um dos acompanhantes de Lue ergue duas malas de cerveja, eles se aproximam e colocam mais caixas de pizza sobre a bancada de ferramentas. 
 — Digam olá à LuAnn, rapazes! — Oscar passa por eles em direção às pizzas, os rapazes olham pra mim sorrindo. 
 Eu olho pra eles alternadamente. Um regula a mesma idade de William, é de estatura mediana, tem o cabelo castanho comprido preso em um rabo-de-cavalo na nuca e usa barba. É do tipo magro com músculos firmes. — Oi, LuAnn. Álvaro. — Sorri inclinando um pouco a cabeça, e abre uma lata de cerveja.  
 O outro parece mais novo que Álvaro mas não tanto quanto Lue, cabelo preto bagunçado, brinco nas orelhas, mais musculoso. Olhando pros quatro no cenário como um todo, deixando os coroas de fora, eu os vejo pelados, suados e sorridentes me chamando pruma orgia no capô de um daqueles carros.  Sinto um sussurro soprar no meu ouvido direito , um sorriso malicioso interno, quase rio alto. Mas ao invés disso dou um gole da minha cerveja, uma delícia, e digo oi depois que ele diz o nome dele: Jean. 
 Todos mastigam pizza. Ninguém disfarça o apetite, dando grandes mordidas e terminando os pedaços rapidamente. Depois que acalmamos a urgência do estômago William olha pra mim e pergunta: 
 — O seu é o fusca conversível?  
 — Tenho cara de quem tem um fusca conversível? 
 Ele balança os ombros bem humorado. 
  — Não. — Sorrio. — Não sou cliente. 
  — Está perdida? Ou é nova na vizinhança e veio se apresentar? — Lue mira os olhos castanhos em mim com aquela mesma força, eu sinto a coisa. 
  Dou uma risada curta e mordo a pizza. — Sou filha de um velho amigo dos pais de vocês. 
 Eles olham pra Oscarl e Edgard. — Chucky. — Edgard fala. — Vocês não chegaram a conhecer, mas William deve lembrar. 
   William concorda com a cabeça. — Sim, ele trabalhava aqui com você há uns anos. 
 — Ele deixou uma Chopper pra LuAnn, temos que checar se está tudo dentro dos conformes antes de deixar ela sair daqui.  
  Os rapazes concordam. — Onde está? Pergunta Álvaro, o de barba e rabo-de-cavalo. 
  — Num dos contêineres. — Oscar responde. 
— Sabe pilotar? — Os brincos nas orelhas de Jean brilham, como o olhar zombeteiro que ele lança prra mim. 
  — Não. 
 — Vai fazer o que com ela? Você pode arranjar uma boa grana, é um modelo clássico!
  — O que eu vou fazer com ela? — Dou uma risada seca de desdém. — Pilotar. Não preciso de dinheiro. 
  Jean dá uma risada, nada ofendido e concorda com a cabeça com um gesto vigoroso. — Isso aí! 
  — Haha haha... Oscar leva a mão à barriga. — Essa garota! 
 — Seu pai tá na cidade? — William me pergunta, se levantando da escada dobrável em que está e se aproximando de mim. Eu estou sentada na bancada, ao lado de uma caixa de pizza, ele pega uma fatia e recosta ao meu lado. 
 — Não. Vim sozinha. 
 — De onde? — Indaga Lue com aquele olhar. 
— Originalmente? São José. A última parada? Lincoln, Catarina do Sul. 
  — Essa moto vai lhe ser útil, filha. — Edgard sorri. 
  Eu concordo com a cabeça — É, vai... — murmuro, me distanciando mental e até fisicamente, sendo tomada pela necessidade de correr, de apenas levantar e sair por aí... A moto será mais que útil. — Já tive alguns carros. — Roubados, acrescento em pensamento. 
 — Você é nova, LuAnn, pra sair por aí assim. — Oscar uni um pouco as sobrancelhas. — O que você procura? 
  — Não procuro por alguma coisa, e sei me cuidar.  — Sorrio pra ele. Eles não me conhecem, não sabem nada a meu respeito, não tem ideia.  
 — Vamos dar uma olhada na máquina então. — Edgard levanta do banquinho de madeira e começa a andar, indo em direção ao terreno nos fundos, nós o seguimos. 
  Lue acende um cigarro, andando à minha direita, olho pra ele e ele me oferece um trago, aceito com um olhar risonho. Oscar e William erguem a porta do contêiner. Admiro a bunda de William quando ele dobra os joelhos e os braços fortes quando ele solta a porta no alto. Álvaro, o de rabo-de-cavalo acende a luz e assovia quando vê a Chopper, os outros concordam. 
 — Está muito conservada, intacta, na verdade. — William agacha na minha frente, olhando os pneus e motor. — Uma troca de óleo, talvez regulagem de freio e uma checagem no motor pra garantir. Podemos fazer isso agora.
 — Não precisa ter pressa. Vocês acabaram de largar do trabalho, pode ser amanhã. 
 — Por nós está de boa, gata. — Álvaro balança os ombros. 
  Olho pra Jean e Lue, eles concordam, Edgard e Oscar dão de ombros com um sorriso.  
 — OK, então. — Falo. 
 — Certo. — William enruga um pouco a testa unindo as sobrancelhas. — Lue vai lá na oficina pegar as ferramentas, Jean, Álvaro me ajuda a abrir o caminho aqui. — Eles começaram a afastar as caixas envolta da moto e levantar panos. 
 Edgard me chama pro canto com um toque no ombro, Oscar observa com as mãos nos bolsos da bermuda. 
 — Foi uma grande surpresa você aparecer aqui. — Diz Edgard olhando em meu rosto, uma mão no meu ombro esquerdo. — Chucky é um irmão. Você sendo filha dele é da família, vamos te ajudar no que precisar. Fique aqui esta noite. Vou pra casa pedir pra mulher preparar um quarto pra você, eu insisto. Te daríamos uma carona até o centro, mas acho que você não está hospedada em nenhum lugar, está?  
 Eu inclino a cabeça pro lado, como se dizendo que é óbvio. Edgard sorri. — Mesmo que estivesse eu não permitiria, você é bem-vinda. Então, quando acabarem aqui meu filho vai te acompanhar até nossa casa. Amanhã a gente conversa melhor.
— Muito obrigada, Edgard. 
— Não precisa. — Ele tira a mão do meu ombro e sai andando. — Não demorem tanto garotos, ainda temos o dia de amanhã! 
 Lue volta trazendo uma maleta pequena e se junta aos outros, Oscar nos lança mais um olhar e acompanha o irmão. 
  Os quatro caras rodeiam a moto e começam a mexer e a falar entre si. Minha mente se recolhe, me distancio do momento. Com as mãos nos bolsos traseiros da calça viro o rosto pro lado, de onde me vem o sussurro. Não vejo nada além do negrume da noite. Ouço o silêncio das sombras, ergo o olhar pro céu escuro, e então ouço os sussurros noturnos chamando pelo meu nome outra vez, fazendo gracejo. Um sopro gelado no meu ouvido. Olho ao redor, fixamente, encaro. Está bem ali, no escuro, eu o sinto mas não consigo ver. Corro os olhos pelos fundos do galpão e giro 360 graus até voltar ao rapazes, suas vozes se tornam claras de novo. Há um problema com vazamento de óleo, e eles tiram algumas peças, isso leva alguns minutos, fico observando. 
  — Vamos continuar amanhã. — Álvaro fica de pé. — A gente tem que ver dentro desses caixotes, e comprar as outras paradas, mano.  
  — Vou soldar pra não ter mais esse problema. — William mexe e gira uma peça nas mãos.  
 Jean se aproxima de mim e me estende a mão preta de graxa, o sorriso bonito brilhando como seus brincos.  — Foi um prazer, princesa. 
 Pego na mão dele e aperto com firmeza. — Princesa. 
 Ele olha pra minha mão suja de graxa e ri.  
—É, isso aí, gata! — Álvaro exclama se metendo entre nós. Damos um aperto de mão também e ele continua falando, se aproximando da moto outra vez. — É coisa simples, mas precisamos de umas paradas que não temos aqui agora, talvez tenha numa dessas caixas. Mas a gente já sabe o que fazer, amanhã te entregamos essa belezinha perfeita.  
 — Valeu. — Falo. 
 William e Lue arrumam algumas peças sobre um pedaço de papelão no chão, levantam limpando as mãos nos jeans. 
— Vamos cair fora. — Álvaro se junta a Jean que o espera alguns metros adiante. — Valeu, valeu! 
  William para ao meu lado e eu percebo o quão alto e largo ele é. A presença forte, os pés firmes no chão. Fico um pouco impressionada. 
 — Bora? — Lue faz um aceno com a mão e começa a andar. 
 — Vocês moram naquela casa? — Indico adiante com o queixo, acompanhando-os à garagem. 
 — É pra aquele lado, mas a casa que dá para ver daqui é a da nossa avó. — William responde. 
  Fico entre os dois rapazes no banco da picape, percorremos o caminho de terra que corta o terreno gramado. Entramos pelo portão grande de trinco que já está aberto, as casas à esquerda iluminadas e silenciosas. São casas de dois andares, com quintais grandes, e muito espaçadas entre si.  William passa por duas delas e para. Lue desce e segura a porta pra mim, aparentemente sem maldade, eu passo por ele quase encostando o quadril na sua virilha e o ouço bater a porta. Ele anda atrás de mim por um instante, pra olhar a minha bunda no jeans apertado. Contornamos a picape e paramos à frente de  William. 
— Vou lá, mano. — Lue estende a mão pro primo. 
  — Valeu, até amanhã. 
 Lue vira pra mim, o olhar envenenado de malícia. — Até amanhã. Faz um gesto com a cabeça, a boca um pouco aberta, lábios vermelhos úmidos. Até, eu falo, consciente de meu próprio ar malicioso. William parece não perceber. 
 À tarde, quando eu cheguei na oficina meu apetite latejou, enchendo minha boca d'água, Lue viu minha expressão libidinosa tão discreta e gritante, eu o despertei. Um predador reconhece outro.  Essa porra vai ser gostosa, penso enquanto acompanho William pela varanda da casa dele. 

 O hall de entrada dá direto na escada para o segundo andar, à esquerda a sala de estar, à direita a de jantar, eu ouço vozes vindo dessa direção. O ambiente cheira a lavanda e carne grelhada.  
 — Chegamos! —  William atravessa a sala de jantar e eu o sigo até a cozinha. Chão de madeira escura, móveis claros, paredes cor creme.  
  Uma mulher coloca uma tigela de porcelana com filés suculentos e quentes sobre a mesa.  Ela é alta, seu cabelo é marrom escuro, preso em um coque alto. Não é nem magra nem gorda, parece ter uns quarenta anos, rosto muito bonito. Edgard, sentado em um banco de madeira alto  próximo à janela, segura uma garrafa de cerveja. Falam sobre não sei o que e param quando nos veem. 
 Edgard sorri. — Essa é a LuAnn, Kelly! 
  — Olá. — Eu sorrio fabricando uma expressão acanhada, parece apropriado. 
  A mulher olha bem no meu rosto, as bochechas e o nariz  dela cheios de sardas. — Como vai? — Sorri. 
  — Bem, obrigada. Obrigada por me receber na sua casa, desculpe o incômodo. — Falo humilde. Kelly dá um passo em minha direção e passa a mão pelo meu braço. 
 — Você não incomoda, querida. Sente-se. 
 Eu puxo uma cadeira e sento à mesa. William fica de pé ao lado.
 — Você deve estar cansada, Edgard disse que você veio de São José. Longa viagem. — Kelly fala se voltando pro fogão e jogando mais filés na chapa.  
 Recosto na cadeira. — Eu até dormi no contêiner do depósito. — Falo com ar humorado, Kelly ri. — Eu sou de São José, mas estou na estrada há vários meses, passei os últimos três em Lincoln, no sul.  
  — Garota da estrada. Muito corajosa. — Kelly fala em um tom que julgo sincero.
 William diz que vai lavar as mãos, pergunto se posso acompanhá-lo e vamos os dois até o banheiro, ele me deixa usar primeiro e eu volto pra cozinha. 
 — Meu pai me deu as coordenadas daqui, me deixou a moto dele. — Conto à minha anfitriã mesmo sabendo que Edgard já falou, é conveniente manter a conversa. 
 — Tudo que você precisa, garota. Agora ninguém te segura, han? — Kelly dá uma risada, e eu sorrio por ela não duvidar que eu posso pilotar. Tenho a clara percepção que ela não é uma otária de mente mesquinha. 
 Edgard me observa com olhar discreto, despreocupado. Ele levanta do banco e vem sentar à mesa, na cabeceira, à minha direita. Aí eu reparo a mesa. Uma panela de batatas assadas com pedaços de bacon, salada, uma jarra de suco amarelo. 
 — Eu viajei muito quando era mais nova. — Kelly olha pra Edgard.  
 — Eu também tenho uma Harley. — Ele diz. 
 — Qual modelo? — Eu pergunto. 
 — FSX Low. 
 Eu concordo com a cabeça mas não tenho ideia de qual modelo seja. — Ainda pilota? 
— Menos que antes, menos do que gostaria, só umas voltas. 
  — Porque não quer! Eu não prendo ninguém. — Com um ombro e as sobrancelhas erguidas Kelly trás mais filés à mesa. Edgard não retruca, começa servir o próprio prato e faz sinal pra que eu me sirva também.  
  Kelly senta e começamos a comer, William volta e senta ao meu lado, ficamos em silêncio por um momento. 
  — O que os garotos disseram da moto? Ergo o olhar do meu prato pra Edgard, uma mecha do cabelo loiro cai enquanto ele corta o bife. 
 — Vazamento de óleo, vão soldar. 
 — Hm. William é muito chato com isso, ele vai deixar apenas o suficiente pro motor respirar. 
 Levo uma garfada de batas à boca, lançando um breve olhar pra William.
  — Você vai precisar aprender umas coisas básicas pra se virar por aí, não quero que te passem a perna. Um pneu pode furar, algum problema com motor, freio, amortecedores, nunca se sabe. Tem que fazer manutenção, sempre.  
Eu concordo com a cabeça mas não digo nada. O jantar segue com conversa banal, e eu fico sabendo o tipo de homem que William é. Ele e Edgard falam brevemente sobre serviços concluídos, contas pagas, contas a pagar, responsabilidades cumpridas. Ouço apenas parcialmente, mas gosto de ouvir a voz máscula jovial de William. 
 Eles são uma família muito ocupada com seus negócios. William um cara responsável que chega junto com a família, educado e respeitoso. Depois de algumas pequenas gentilezas durante o jantar, se oferece pra levar minha mochila até o quarto. Eu não estou acostumada a isso, e não sou assim.  
  Cumprimento e agradeço a Edgard e a Kelly e sigo Wiliiam. Minha visão é tomada por um vermelho sangue, minha cabeça fica quente, enquanto eu ando pelo corredor e subo a escada atrás dele. As costas largas na camisa verde escuro, a bunda e as coxas no jeans velho, comprimo os lábios, sentindo uma quentura correr pelos meus membros.
 No alto da escada há um hall com uma mesinha decorada por um vaso de flores brancas e um espelho emoldurado na parede. No corredor, passamos pela primeira porta, à direita, William diz que é o quarto dele; dois passos adiante, o banheiro entreaberto à esquerda; mais sete passos e uma  porta dupla à direita;
 — Sala de leitura, visitas... — William sorri suave parando tempo suficiente pra eu dar uma espiada. É uma sala espaçosa, com móveis antigos, tapete vermelho escuro e prateleiras com cristais. Há mais três portas no corredor adiante, ele abre uma delas. — Esse é o quarto que você vai ficar. 
 — Obrigada, William. — Pego minha mochila da mão dele e paro no batente da porta. 
 — Qualquer coisa que precisar, bata a minha porta. 
 Eu concordo com a cabeça, um riso secreto, será que ele tem ideia do que está sugerindo? 

 Entro no quarto, acendo a luz e fecho a porta. Tem uma cama de casal no centro, uma janela acima da cabeceira, dois criados-mudos, uma poltrona de um lado, o armário de outro, o piso é marrom escuro e as paredes amarelo claro. Sento na cama largando a mochila aos meus pés, abro o bolso lateral e pego a carteira de Camel, o estojo de isqueiros, escolho o do Nirvana e acendo um cigarro. Procuro pelo saquinho de maconha entre os isqueiros, coloco no bolso. 
 Fumo o cigarro até o final e levanto, carregando a mochila até o armário. Não arrumo minhas coisas nas gavetas, apenas pego uma muda de roupas limpas e penduro a mochila em um cabide. Sobre a cama, Kelly deixou duas toalhas limpas, as pego e vou pro banheiro.
  Tranco a porta, tiro a roupa e sento no vaso. Desembeloto a erva, enrolo o baseado, acendo e puxo. Algumas imagens passam pela minha mente, meu pai, a estrada, a moto, as caixas do contêiner, a estrada, esse pessoal. E em seguida tudo some, não penso em nada, me desvazio de tudo. Observo cada detalhe do banheiro, trago mais uma vez, prendo, solto. Sinto uma dor no peito, meu coração começa a bater mais rápido. Minha mente começa a se desfazer.
  Tomo banho frio, não sei quanto tempo levo. Escovo os dentes, penteio o cabelo, me visto e tenho a impressão que estou aqui há um ano. Vou pro quarto. Aquela sensação quente e inquieta, como sempre, se acomoda no centro do meu peito. Um deleite quase sexual pelo ar noturno, fresco e misterioso, pelo silêncio das horas escuras. Os sussurros maliciosos e convidativos me seduzindo, me chamando, me chamando, a atração que sinto faz o ritmo da minha respiração ficar mais lento, intenso.
 Tiro o jeans e trepo na janela, só de calcinha e camiseta. O ar frio da noite me envolve, me sinto muito bem, relaxada. Observo o terreno que se estende por muitos hectares gramados e alguns relevos não muito altos, a noite eu não posso distinguir se são mais próximos ou distantes. Minha mente ondula, em um apagão de consciência, sem pensamentos. Seguro na moldura da janela e fico pendurada em uma mão, em um pé, o outro pendendo no ar, balançando, balançando. Passam-se mil anos no vácuo. Balançando...
Sento no peitoril e encaro a escuridão. Começo a pensar em meu pai. “Eu sei que você é forte, use essa força.” Ele me mandou aqui porque sabia no que eu me tornaria. “Não aceite tudo que te disserem”. De alguma forma ele sabia. Ou esperava que fosse assim. Porque eu me lembro claramente de suas palavras antes dele ir cair fora. 
  “Eu sei que você é forte, use essa força. E não aceite tudo que te disserem, não se você ver que é ruim pra você, que não é o que você quer. Entendeu?" Eu concordara vigorosamente, a maneira que ele falou foi intensa, seus olhos profundos nos meus me assustaram. "Você saberá o que é certo pra você." E então ele me entregou o pedaço de papel com as coordenadas... e disse pra eu guardar com muito cuidado…  pra não deixar ninguém pegar, não dar a ninguém. Foi o que fiz. “Entendeu?” “...não se você ver que é ruim pra você, que não é o que você quer.” “Entendeu?”“Entendeu?”“Entendeu?”“Entendeu?” Minha cabeça gira de vertigem.
 Penso que meu pai viu em mim o que havia nele... ele reconheceu.“Entendeu?” E me deu uma direção. “Entendeu?” Percebo o significado de suas palavras, pra ele a nossa família não era o que ele queria, por isso foi embora. É, safado… Ah-ha!
  Essa fome pelo desconhecido... o impulso incontrolável... em busca pela liberdade que me deixa tão estarrecida... que eu não consigo... se quer pensar a respeito. Eu não consigo conter. Eu não quero. E isso me inquieta… ardendo em minha mente como o fogo do inferno! Eu não entendo, não poderia… e nem quero. Não indagamos de onde vem e porque das inclinações bondosas, por que o fazer com as más? Assim que eu sou, e ponto. 
  Satisfazeeer... É o único pensamento.
 A onda me puxa pra baixo, fico um tempão olhando pro escuro. Encaro a noite escura por muito tempo, há muito que ver, mas não com os olhos da cara, além... no profundo da noite, e eu olho por muito tempo... e ela olha de volta pra mim. 

2 comentários:

  1. Que gostoso viajar com LuAnn...

    Cara, Chucky não podia ter deixado presente melhor hum???Pqp.
    Imaginei aqui a varinha dela...Os olhos brilhando qdo viu a moto.

    Mas caramba...qto gato pra ela escolher...que difícil, não foi atoa que ela logo pensou na orgia no capo....kkkkkkkkkkkkkk


    "Meu corpo é minha casa"
    Melhor resposta, foda.


    Ethan....huuuummmmmm...Acho q vai render coisas mto Boas...

    E ela lembrando dos conselhos do pai..."Você saberá o que é bom pra vc"


    Gostei mtooooooo do cap.

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