3
Meses depois.
O tempo que passou foi como o percurso de um túnel muito longo, escuro e abafado cujo as paredes se aproximavam mais e mais a cada hora, como um maldito funil. LuAnn faltou a poucas aulas, continuou trabalhando, fez os exames e foi aprovada. Não foi à festa de formatura da escola, juntou os colegas e organizaram sua própria festa no cais, regada a drogas e bebida.
A lua refletia no rio, o chão oscilava sob os pés e a mente apagava e ofuscava, em pé em um círculo de pessoas LuAnn sentia a cabeça solta do pescoço. Cheirou e bebeu a noite inteira, dançou em cima dos carros, cantou ao berros erguendo garrafas de vodca e cerveja nas mãos, foi ao ápice da euforia. Ela não falava muito e não era de ficar sorrindo à toa, mas adorava algazarra e agitava como ninguém.
Aconteceram três brigas seguidas, todos drogados demais, LuAnn observou de perto, enquanto a good trip passava e ela voltava à terra, o ofuscamento da mente diminuindo e o atordoamento ocupando o seu lugar. Alguns flashes de luz insistiam em pulsar em sua visão e seus pensamentos eram desordenados. Ela tinha a testa vincada com força e o olhar vidrado desvairado, fitando a água do rio que refletia lua.
De repente, após um sem fim de minutos em que fitou o rio, se afastou do grupo em direção ao prédio velho. Todas as suas percepções do mundo oscilavam, o ar fazia pressão nos ouvidos. Para ela a festa tinha acabado, perdeu o interesse. Entrou no mato e andou alguns passos até as ruínas, paredes com buracos grandes, quase completamente destruídas, o entulho amontoado por toda a parte, mato crescendo entre os tijolos e piso. LuAnn andou com as pernas soltas até a escada, deu alguns passos no segundo andar e caiu por cima das pedras e cacos de tijolo. As pernas arranharam nas pedras e o quadril bateu com força no chão, a caneca de acrílico que segurava quebrou, o sangue começou a escorrer. LuAnn ficou um tempo parada, e mais um tempo tentando levantar. Observou a mão com indiferença e olhou a frente, através da parede rasgada as águas escuras do rio, luzes piscando, carros colidindo. Aproximou-se da marquise, parou na beirada e olhou além.
Seu olhar cerrou, aquecido por um fulgor endurecido.
— Chegou a hora. — Sussurrou para si. Sentia uma mistura de excitação, insatisfação e a tonalidade dominante: fome. Estava de saco cheio daquela cidade, mas não era somente o lugar,precisava de novos ares, sentia fome deles. LuAnn não sabia sobre seu destino, mas tinha certeza do que queria. Ansiava para que o túnel chegasse ao fim, para que o tempo de espera acabasse e ela pudesse dar vazão aos seus desejos mais obscuros.
Olhou para baixo e observou os outros, nunca se sentiu em casa ali, e essas pessoas não lhe tocavam o coração. Há muito tempo LuAnn chegou à conclusão de que havia algo de errado nela, mas nunca achou que tivesse algo de errado nisso. Nunca passou por sua cabeça renegar a si mesma, se submeter, sufocar-se e matar. Porque era isso que seria se não atendesse aos seus instintos.
Cof, cof! A boca do estômago dá um nó e torce, cabeça gira, gira. LuAnn se inclinou e o jato de vômito acertou os que estavam lá embaixo.
Josh estava sentado em um dos carros ali e deu risada do casal alvo, quando olhou para cima e viu LuAnn ficou sério e pulou do capô. Foi até um isopor, catou uma garrafa d'água, pegou um espeto de frango no fogo e subiu as escadas até LuAnn. Os olhos dele estavam vermelhos e cerrados, ele também não estava firme nas próprias pernas. Sentou ao lado dela e lhe ofereceu a garrafa de água, LuAnn lavou a boca e bebeu tudo de uma vez.
— Deixa eu ver a sua mão. A outra. — Josh se inclinou para LuAnn, os reflexos dos dois estavam embaralhados, erraram três vezes até ele conseguir segurar no pulso dela. Eram dois cortes longos, no meio da palma e ao longo do polegar da mão esquerda. — Essa porra tá sangrando pra caralho... Tá doendo?
LuAnn fez que não com a cabeça e pegou o espeto de frango da mão dele. O sangue escorria, mas LuAnn sentia apenas uma ardência distante.
— Você tá dopada, se for muito fundo você pode morrer perdendo sangue — Josh riu baixinho, LuAnn ergueu as sobrancelhas e gargalhou, eles então não conseguiram parar.
— Só tá sujo, já parou jáá... — LuAnn jogou o palito fora, sacudiu a mão espirrando sangue e tirou a camisa. Raramente usava sutiã, ficou seminua, Josh não protestou e não ofereceu a própria camisa a ela, LuAnn estendeu a mão e ele amarrou apertado.
Tocava Van Halen, Dance The Night Away, lá em baixo, Josh a puxou para o colo dele e mordeu os seios dela, LuAnn cantou a música aos sussurros enquanto transavam. Passaram a madrugada dirigindo drogados pela cidade, som alto, gritaria, risos descontrolados. Na sua vez de dirigir LuAnn atropelou um homem, Josh não tinha certeza se foi um acidente, voou pra cima dela e pisou no acelerador, não olharam para trás. Ao amanhecer LuAnn começou a sentir dor e fraqueza, a mão parecia a pata de um elefante, dirigiram até um hospital. Vinte e um pontos.
LuAnn
Chego em casa umas seis horas da manhã... me jogo na cama e apago. Durmo o resto do dia, um sono pesado, escuro e sem sonhos. Quando acordo o quarto está na penumbra daquela hora em que é difícil dizer se ainda é dia ou já é noite. Abro e fecho os olhos. Minha boca está com um gosto amargo horroroso e a garganta seca. Eu me sinto uma porcaria, o corpo dolorido, especialmente a mão esquerda, músculos moles, a cabeça chiando. Continuo por muito tempo deitada tampando a cara com os braços. Até que meus pensamentos silenciosos se tornam um zumbido. Sinto uma pressão forte na cabeça e então o barulho surdo..............
Levanto da cama. Meus reflexos ainda não estão bons, estou meio instavél.
Cato a carteira de cigarros e o isqueiro do chão, encaro o zippo prateado demoradamente, me perdendo por um momento em um pensamento vago — o isqueiro pertenceu ao meu pai.
Vou pra janela e apoio os cotovelos no peitoril, a vista é da rua da lateral da casa, a frente a janela do vizinho e a esquerda a rua movimentada por carros, olho pra baixo, a rua da frente quieta como sempre. A casa também está silenciosa, acendo um cigarro e olho em volta do quarto, atentando pra a porta, eu não tenho ideia de que horas são. O céu está roxo e opaco. Essa porra é manhã de novo? Vou até a escada e chamo por minha irmã, ela diz que são seis da tarde. Volto pro quarto pensando se vou trabalhar ou não, eu me sinto muito horrível, suja por dentro, principalmente no esôfago, garganta e estômago. Minha mente também está uma porcaria. Mas não posso faltar ao trabalho, serei descontada na grana e eu preciso dela.
Abro o guarda-roupa, eu venho juntando dinheiro há um tempo, tenho umas quinze mil pratas, guardo tudo numa bolsa pequena de couro, embaixo da última gaveta do armário. Guardei todo o dinheiro que consegui de um tempo até aqui. Trocados que minha mãe me deu, dinheiro pra comprar roupas, de parentes como presente. Eu ajudava senhoras a carregar peso, limpei quintais, lavei carros, roubei e vendi coisas. E trabalho no Fliper há alguns meses ganhando trezentos fixos por mês mais o extra da cantoria. Parei de contar quando cheguei a dez mil, o suficiente pro que eu quero.
Eu ajudo em casa com algumas coisas, mas minha mãe nunca permitiu que eu fizesse muito. Se ela soubesse que estava me ajudando a poupar o dinheiro que usarei pra ir embora, teria me encarregado de algumas contas pra pagar.
Nunca pensei pra onde ir ou o que farei, eu não tenho um plano. Apenas vou.
Isso domina meus pensamentos, me consome. A. Cada. Segundo.
Terminei a escola e não tenho mais nada que fazer aqui, a ideia de fazer faculdade, arranjar um emprego "mais sério" e toda essa porcaria me estrangula. De jeito nenhum! Quanto menos continuar no Fliper. To fugindo de regras, horários e roteiros.
Eu preciso cair fora. Deixar tudo e todos pra trás. Talvez o meu futuro seja assim; apenas andando no mundo, além e além, não consigo ver nada além disso. Rio com a palavra que vem à minha mente, eu quero ser uma vagabunda. Andante, nômade, ambulante, vagante.
Pego a bolsa de couro no fundo da gaveta, procuro no bolso da calça e puxo o dinheiro que afanei noite passada, cento e cinco paus. Roubei também um relógio, não lembro de quem, esse guardo na caixa de sapato com outras joias que surrupiei dos clientes bêbados do bar, na casa dos vizinhos, dos meus colegas chapados. Eu não sou uma garota confiável, verdade.
Não penso, apenas decido, é chegada a hora. Jogo as joias na mochila e vou tomar banho. Quando desco Lili e minha mãe estão assistindo à novela favorita delas, são 19h08. Faço um sanduíche com desfiado de frango e maionese e como com café. Sentada à mesa da cozinha eu observo as duas na sala.
Lili sabe dos meus anseios, mas acho que ela não acredita de verdade, ou não quer aceitar minha ideia. Falamos apenas duas vezes a respeito, e eu não quero comentar agora. A observo pensando em quanto ela se parece mais com nossa mãe do que eu, o mesmo cabelo claro e olhos azuis. E além da aparência é diferente de mim no restante também, eu não acho que devia ser de outro jeito, cada um é como é, mas isso nos afasta. Na verdade, eu não sou próxima a ninguém.
Ouço o intervalo da TV, e minha mãe começa a falar. Ela conta a Leslie que um cara que fez uma obra aqui em casa há uns meses, um filho da puta safado, não terminou o serviço e quando ela cobra ele responde com obscenidades e babaquices. Eu levanto, o que aquele filho da puta falou pra você, mãe? Vejo vermelho. Ela desconversa.
Subo, pego minhas coisas, saio, vou no penhor. Fico apenas com cinco anéis grandes, e um par de argolas de ouro e prata. Largo no bar às 3:30 a.m, vou direto pra casa, pra casa do cuzao. Vou entrando direto, pulo o muro, arrombo a janela, vou pro quarto, arrasto ele da cama, meto paulada.
— Tu respeita as mulheres, seu arrombado do caralho! Se eu ver tu falando merda de novo na rua eu acabo com você! Ta entendendo?! Pague suas dívidas, todas, tá me ouvindo? Se não te mato! Pá! Paulada na cara. E ele apaga.
Volto pra casa aliviada, mas cenas violentas passam em flashes na minha cabeça, foi tudo tão rápido. Vejo Josh, Lavínia, Carol e os outros sentados na calçada da casa de Lavínia, disfarço pra que não me vejam, nunca mais os verei.
No quarto, separo o que vou levar, só o necessário. Não tenho sono, meu sangue ferve.Há uma infestação na minha mente, eu não consigo tirá-las da minha mente. Há sangue nos meus dedos. Pego meus cigarros, o zippo prateado e pulo a janela pro telhado. Me deleito no momento, tragando a sensação até meu sangue esfriar e eu perceber a noite ao meu redor. Então fico em paz.
Penso em minha mãe, em como ela reagirá pela manhã, em Leslie, e em como ficarão. Eu me importo com elas, mas nunca hesitei, não hesito em partir, por um segundo sequer. Visualizo o Fliper, as ruas, as pessoas, tudo que eu conheço, eu não sentirei falta. Não sinto nenhum pesar.
Pela manhã eu acordo com Leslie se arrumando pra ir à escola. Ela mexe na mochila, vai e vem fazendo ruído com os pés, abre as gavetas, passa perfume.
— Porra, Leslie! — Resmungo olhando pra ela por entre a franja, os olhos cerrados.
— Foi mal, foi mal! Tô atrasada! — Ofega, e sai fora deixando a porta aberta.
Eu fecho os olhos e apago de novo, mas não durmo por muito tempo, levanto e desço até à cozinha. A casa está vazia, fumo bebendo café sozinha, depois volto ao quarto. Guardo o dinheiro do fundo da gaveta em partes, dentro das meias, no bolso interno da mochila, dentro de um pé de sapato e um pouco na carteira. Abro a caixa onde guardo meus isqueiros, Hard Rock, Camel, Malrboro, Nirvana, Led Zeppelin, Marilyn Moore, vermelhos, pretos, os modelos são variados, mais de quinze, os guardo em um estojo e jogo na mochila também.
Acendo um cigarro com o da Marilyn e sento na cama. O dia está nublado, nada do sol iluminando as coisas daquele jeito dourado, as paredes brancas do quarto dão ao ambiente um ar etéreo. Lembro de Lilie e eu brincando aqui, mas não há lamento. Não quero fazer um ritual de despedida da casa e essas merdas, mas não consigo evitar os flashes que passam em minha mente.
Levanto e vou até o quarto da minha mãe. Tudo muito arrumado e limpo, cheira a lavanda. Abro o armário e entre as roupas dela pego a jaqueta jeans que pertencera ao meu pai. Está em bom estado, mas a estampa nas costas foi tirada, alguns fios de linha vermelha pendem do tecido. Tiro do cabide e visto. Dobro as mangas no punho e olho no espelho, está grande, mas me cai muito bem. O tecido guarda odor de cigarro e o próprio cheiro do meu pai, acho que ela foi guardada sem ser lavada. Os bolsos estão vazios, mas isso eu já sabia. Conferi há muitos anos, quando a vesti e achei o isqueiro prateado.
Senti a partida do meu pai, cresci sentindo a falta, e ainda não entendo o que aconteceu. Mas não penso demais sobre isso, bloqueei a dor, as indagações. Eu me lembro dele. Meu pai usava barba e tinha o cabelo escuro aos ombros. Era alto e atlético, muito bonito. A voz era grave, o sorriso bonito, e era jovem. Eu tinha cinco anos quando ele foi embora. Minha mãe nunca mais falou dele, nunca respondeu às poucas perguntas que fiz, mas deixara um porta-retratos com uma fotografia de nossa família reunida em sua cabeceira e outro na sala. Talvez os tenha mantido para não nos subtrair completamente a imagem de pai. Foram tiradas na mesma ocasião. Eu me lembro daquele dia também.
Foi em um domingo, estávamos assistindo a um filme e comendo doce de amora caseiro. Minha mãe que programou a máquina, ela correu para junto de nós no sofá. Na fotografia todos sorrimos, lembro que minha mãe quase não chegou a tempo do clique. Lembro do calor dos nossos corpos próximos, lembro da sensação de união que nunca mais senti.
Algumas coisas marcam a gente como brasa no gado, pra sempre. Minha mãe nunca superou, nossa família nunca mais foi a mesma. A maior parte da minha vida, até agora.
Leslie tinha apenas dois anos, não lembra de nada, eu tinha apenas cinco, mas lembro de tudo. Olhar essa foto faz meu coração pesar e minhas tripas estrangularem meus pulmões. Por muitas vezes me indaguei como seria se meu pai estivesse em casa. Ele era um bom pai, um bom marido, era muito carinhoso, por isso não entendo. Eu sinto mágoa pelo buraco que ficou, eu sinto raiva por ele ter nos deixado, tristeza por tudo ter mudado.
Mas não é por isso que eu estou partindo. Eu vou embora porque preciso ser quem eu sou, e algo me chama, e a fome, eu quero libertar o monstro dentro de mim.
Estava tudo pronto para LuAnn partir, não passou por sua cabeça que faria o mesmo que seu pai fizera com ela e sua família. Deixou a jaqueta sobre a cama e desceu para a sala. Não queria ver ninguém ou fazer nada, passou o resto da manhã assistindo televisão. Se ficasse mais em casa saberia que às quintas-feiras Sara tira folga, ouviu o barulho na porta e se pôs de pé em alerta. Sara entrou em casa e ficou surpresa por encontrar LuAnn, ela nunca ficava em casa, quanto menos assistia televisão.
— Oi. — Fechou a porta, manobrando as sacolas nas mãos, passou a manhã fazendo compras.
LuAnn apagou o cigarro e a ajudou. — Muito sensível da sua parte apagar o cigarro mas ainda posso sentir o cheiro. — Sara tentava parar de fumar há alguns meses, fungou o nariz tentada, um sorriso.
LuAnn sorriu também e a acompanhou até a cozinha. — Não esperava que você estivesse em casa a essa hora. Aconteceu alguma coisa?
— É a minha folga.
— Hm.
— E por que você está em casa?
— Não tô afim de ver ninguém hoje não. — LuAnn falou andando pelo corredor de volta a sala. Ela sentou no sofá e continuou assistindo ao programa de auditório, ouviu os barulhos da mãe na cozinha por algum tempo e então foi até ela outra vez.
Sara picava cenouras, recostada na pia, LuAnn se aproximou. — Mãe. — Sara ergueu o olhar. — Agora que eu terminei a escola vou sair de casa.
— E para onde vai?
LuAnn encostou o quadril no armário de louças. — Não sei.
Sara largou a faca. — Não sabe.
— Eu tenho dinheiro, uma boa quantia, vou ficar bem.
Por um momento tenso Sara a encarou. — Eu sei que você sabe se cuidar, não é nenhuma idiota. — Fez uma pausa. — Eu espero que não seja.
LuAnn não disse nada.
— O que vai fazer? Vai com quem?
LuAnn fez que não lentamente. — Não tenho grandes planos, na verdade nenhum. Vou sozinha.— Mas aí pensou que seria bom tranquilizar a mãe. — Visitar alguns lugares, arranjar um emprego, conhecer pessoas. Eu não me vejo aqui, mãe, mas também não sei onde.
Sara apertou o maxilar e conteve a emoção, balançando a cabeça em negativa, tentava controlar a tontura mas não transpareceu nada. Era isso que ela esperava, algum dia, mas sentiu o impacto da mesma forma. Sua filha no mundo, solta e sozinha. Temia por LuAnn, por experiência Sara sabia que fazer o que se quer nem sempre acaba bem. Arrependimento é um sentimento acre. Puxou uma cadeira e sentou. Abriu a tampa do vaso de porcelana em forma de maçã no centro da mesa, tirou um maço de cigarros e isqueiro.
— Em caso de emergência. — Explicou.
LuAnn assentiu contendo um sorriso. Sara fumou em silêncio, LuAnn lhe deu um tempo, abaixou o olhar e ficou quieta.
Sara sabia que não teria feito diferente se pudesse, se as circunstâncias fossem as mesmas ela faria o que fez para ficar com Chucky, mas se perguntou inúmeras vezes como sua vida teria sido se não tivesse se envolvido com ele. Ela nunca foi de fazer loucuras, pensou que mudaria Chucky, não duvidava que ele a amava, mas as aprendeu que as pessoas são o que são.
Indagava a si mesma se a ausência do pai afetara LuAnn e explicava seu jeito taciturno e rebelde, mas via a autenticidade nos olhos dela, uma certeza inata de quem é. Ou pelo menos de quem não é. Leslie era diferente, uma menina normal. Tinha seus momentos de rebeldia, mas nada comparado a LuAnn. Leslie é tranquila, caseira, estudiosa. O que Sara poderia fazer? LuAnn sempre fez o que quis, e faria de novo. Ia embora, como Chucky.
— Quando você vai?
— Mais tarde.
Sara assentiu. — Busca sua irmã na escola, vou fazer um almoço bom pra gente. — Levantou e jogou o cigarro pela janela. LuAnn anuiu e saiu pela porta dos fundos.
Assim que saiu de casa LuAnn olhou no relógio, eram 11h47, se fosse a pé, quase uma hora de caminhada chegaria a tempo de pegar Leslie na saída, de trem chegaria lá cedo demais. Ela queria andar, e foi sem muita pressa. Pela vizinhança as crianças brincavam na rua, as senhoras conversavam, ouvia-se rap entre os becos. O percurso foi rápido, ela se desligou das coisas ao seu redor e quando se deu conta estava em frente ao prédio cinzento.
Para Leslie o dia passava arrastado, ela fitava o relógio acima do quadro negro e agitava os pés debaixo da mesa. Estava com fome, pensando que Graças a Deus era quinta-feira.
— Lilie! — Samanta, sua amiga a cutucou no ombro.
— Que é? — Leslie virou na carteira.
Samanta deu um risinho abafado contra a mão e com um gesto de cabeça indicou o fundo da sala á direita. Leslie sabia o que, ou a quem, ela se referia. Sorriu e acenou para Roger, o garoto de olhos azuis e cabelo loiro branco oxigenado, ele piscou um olho e ela corou fortemente.
O professor tagarela de biologia a encarava, falando tediosamente sobre vírus, bactérias ou qualquer coisa do tipo, enfatizando cada palavras em demonstração de irritação pela falta de atenção. Mas os pensamentos da garota estavam longe, ela não se importou, fantasiava com Roger.
Uma bola pequena de papel amassado quicou na carteira, Leslie a pegou e desamassou.
"Pizza na casa do Bruno. Vai comigo? R."
Leslie engoliu uma exclamação. Se topasse de cara ia parecer fácil demais, mas por outro lado estava tão afim dele há tanto tempo que não fazia sentido enrolar. Ela escreveu Não Sei, e devolveu o papel.
— O que foi? — Samantha sussurrou energicamente. — O que foi?
— Temos compromisso mais tarde. — Respondeu com os olhos no garoto.
— Quê? Que compromisso?
— Senhorita Maroni? Senhorita Maroni! Silêncio, por favor.
Leslie virou para frente e como se não tivesse sido interrompido o professor continuou. Aconteceu o que parecia impossível, o último sinal tocou. Ela se demorou guardando o material, e Samantha folheava uma revista teen enquanto esperava, era a deixa para Roger se aproximar.
— Lili?
Ela se virou jogando a mochila no ombro. — Oi. — Sorriu.
Roger trocou um olhar com os amigos e eles saíram levando Samantha junto. — E, aí? Tudo bem?
— Estou bem. — Ela queria saltar no lugar, fechar a porta e beijar a boca dele desesperadamente. — E você?
— Beleza. — Sorriu e levou uma mão ao bolso do moletom. — Me liga, pra eu te buscar.
— Hm, claro. — Ela pegou o pedaço de papel. — Mas eu disse que não sei se vou poder ir. — E não era chamar, ela realmente não podia contar com o consentimento fácil da mãe. Por LuAnn ser tão maluca Leslie acabava sendo a compensação.
Roger torceu a boca em decepção. — Quero muito que você vá, mas mesmo se não puder me liga, a gente vê outra coisa.
Leslie estremeceu por dentro e concordou, Roger deslizou os olhos azuis pelas ondas do cabelo dela e pelo rosto corado, antes que pudesse registrar ele colou os lábios nos dela e saiu.
As duas amigas atravessaram o pátio da escola fazendo a retrospectiva desse momento. Leslie estava apaixonada por Roger e tinha que ir nessa reunião mais tarde. Tentavam elaborar uma boa mentira, ou reunir coragem suficiente para falar uma meia-verdade.
— Demorou por que, garota? — LuAnn se meteu entre elas, o cigarro pendurado nos lábios.
Leslie e Samantha gritaram assustadas. — Ah, LuAnn! Que susto! O que está fazendo aqui?
LuAnn apenas sorriu e tragou o cigarro. Samantha olhava de uma irmã para a outra, impressionada com a diferença entre as duas e principalmente com a imagem austera de LuAnn. Leslie tinha quatorze anos, e parecia ter dezesseis, LuAnn tinha feito dezessete há dois meses e parecia ter vinte. Uma loira e a outra morena. Mas se olhasse direito elas pareciam ter a idade que tinham, as feições de meninas, e ao mesmo tempo não, como se a cada ângulo, a cada piscar de olhos se visse de um jeito. LuAnn era estranha, Samantha tinha medo dela, e ao mesmo tempo a achava maravilhosa.
— Onde você vai? — Leslie a puxou pelo braço. Samantha já se afastava achando que era isso que LuAnn queria.
— Tudo bem? — LuAnn ergueu uma sobrancelha para ela. Samantha fez que sim com a cabeça, LuAnn franziu a testa. — Vim falar com você. — Se virou para Leslie. — Eu vou embora hoje.
Leslie virou a cabeça de lado e seus olhos se arregalaram, LuAnn acabara de lhe jogar um balde de água fria, assim sem dó nem piedade. Por que ela tinha que ser tão fria? Não se chega para os outros e fala uma coisa dessa assim.
— Nossa mãe sabe?
— Nós conversamos, ela quer fazer um almoço legal de despedida.
— Tá de brincadeira.
— Não tô. Olha, Lilie, ela não vai fazer nenhum banquete e reunião, ou coisa assim. Acho que só quer mais uma refeição com nós três juntas...
— Você vai embora mesmo?
LuAnn descartou o cigarro. — Mais tarde.
Leslie se calou e começou a andar, Samantha a seguiu tensa, LuAnn ao lado. —Sam, eu te ligo mais tarde, OK? — Leslie falou, Samantha concordou e mudou o rumo.
As duas irmãs andaram dois quarteirões e entraram em uma sorveteria. Pediram banana split.
— Vai de ônibus?
— Vou de qualquer coisa, pra qualquer lugar, Lili. Olha aqueles garotos. —Apontou com a colher para um grupo que entrava. Roger acompanhado dos amigos se dirigiu a outra ponta do balcão.
Leslie o seguiu com o olhar, a colher na língua, olhou para LuAnn, mas não foi preciso palavra, LuAnn entendeu.
— Tá pegando? Tá pegando!
Leslie riu. — Ele é um gato. — LuAnn disse.
— E me chamou pra sair, me deu o número dele. — Leslie pressionou os lábios um no outro.
— Hm, é agora que minha irmãzinha perde a virgindade.
— Cala a boca!
As duas deram risada.
— Como é que eu vou pensar nisso? Não posso me precipitar, nem ficamos ainda. Ele me deu só um selinho agora no final da aula mas...
— Se não pensar no assunto como é que vai ser?
Leslie olhou para Roger, LuAnn o viu jogar um beijo para a irmã. —Eles vão se juntar pra comer pizza mais tarde, ele quer que eu vá, mas eu não sei...
— Por que? — LuAnn franziu a testa. — Aproveita que eu estou indo embora hoje e a mãe vai tá frágil.
Isso foi duro e indelicado, Leslie sorriu mas de um jeito esquisito. LuAnn ficou séria.
— Escuta, Lilie. Não precisa seguir todas as regras.
Leslie ficou pensativa e por um momento certa melancolia ondulou entre as duas.
— E o Lucas?
— Quem? — LuAnn falou com a boca cheia de sorvete, a testa franzida.
— Fala sério! O Lucas, LuAnn, seu namorado!
LuAnn deu uma risada. — Aaaah... — Lembrou. — Sei lá.
— Caramba, como pode esquecer das pessoas assim? Vocês viviam se pegando... Ah... deixa pra lá. — Leslie riu, mas estava espantada de verdade mesmo conhecendo a irmã.
— Eu estou pegando outro cara... Josh.
— Ele sabe que você está indo?
— Não lembro de ter falado.
— Ele não iria com você?
LuAnn uniu as sobrancelhas. — Pra que, cara?
— A mãe não tentou te impedir?
O olhar de LuAnn fixou no de Leslie. — Ela sempre soube que eu iria.
— Eu também. — Leslie sorriu com dor. — Só tive esperança que ficasse...
— Você sabe que não posso.
— Aqui não é seu lugar, eu sei. Seja lá onde for, LuAnn, seja feliz. — Agora Leslie tinha um tom caloroso na voz, foi sincera, mas não foi fácil dizer.
LuAnn semicerrou os olhos e sorriu com os lábios fechados. — Você também. — Indicou Roger com a cabeça. — Quer ir lá falar com ele? Eu espero lá na calçada. — LuAnn levantou.
— Não. — Leslie se sobressaltou. A irmã estava indo embora, ela precisava que LuAnn ficasse perto dela até o último instante.
— O que? Lilie, não seja medrosa, ele está bem ali...
Leslie riu. — Não é isso. Quero que venha comigo.
LuAnn não esperava por isso, Leslie sempre a enxergou com olhos de amor e aceitação, do jeito que ela era, mas ainda ficava surpresa com algumas demonstrações. Para algumas pessoas o afeto é algo muito familiar e presente, para LuAnn não.
— Ah, mas e se ele sair correndo? — Ela indagou.
— Baixa essa bola, irmã, você não dá tanto medo assim. Bora.
Roger estava sentado de lado no banco, conversando, o amigo dele sorriu e ergueu o queixo em direção às irmãs. Roger se virou e abriu um sorriso lindo.
— Oi, Roger. — Leslie disse com LuAnn ao seu lado.
— E aí, Lili.
— Essa é a minha irmã, LuAnn. Lu, esse é o Roger.
— Beleza? — LuAnn estendeu a mão. Roger a segurou e apertou, olhando para ela como se examinando seu rosto.
— Beleza. Eu já não te conheço? — Ele falou, Leslie olhou dele para a irmã. Puta que pariu, eu já peguei o lance da minha irmã sem saber e não em lembro, pensou LuAnn. — Você é a namorada do meu irmão. — Roger falou mais para si mesmo.
— Lucas? — LuAnn perguntou.
Roger sorriu arqueando uma sobrancelha. — Não, Josh.
— Ah, é. Aaah... Sim. Acho que já te vi de relance por lá.
— É. — Roger concordou.
Leslie riu surpresa e imaginando como seria os quatro saindo juntos, mas isso não aconteceria.
— Vou esperar ali fora. — LuAnn girou nos calcanhares.
Era difícil para LuAnn fazer social, na maioria das vezes era cansativo. Ela só queria ir embora logo. Distraída, se visualizando entrando no trem, ela pegou o maço de cigarros no sutiã, bateu com os dedos e alguns cigarros escorregaram, fisgou um com os lábios e acendeu. Fechou os olhos e fumou.
Um instante depois ouviu a voz de Leslie chamar: — Vamos?
LuAnn abriu os olhos e sorriu. — E, aí? Confirmou pra mais tarde?
Leslie sorriu baixando os olhos. — Eu falei que vou. — Ergueu uma sobrancelha ao olhar para a irmã de novo.
LuAnn examinou o rosto dela. — Vai dar furo nele? Leslie...
Leslie não queria que a irmã pensasse que ela era uma covarde e fraca, LuAnn sempre fez o que queria, lutou pelo que desejava, se impôs, e a ensinara a fazer o mesmo. Mas isso não era fácil para Leslie, ela se resignava com muito facilidade e evitava conflitos.
— Vou falar com a mãe.
— Você merece se divertir um pouco. — As duas começaram a andar pela calçada. — Fala que vai ser uma reunião de amigos, o que não é mentira. Isso não é nada demais.
Leslie fez um gesto como se fosse falar mas ficou em silêncio pensativo. Apesar de gostar de Roger e querer se divertir isso não a preocupava mais do que sua irmã mais velha estar indo embora. A dor e o medo pressionavam seu coração e ela estava atordoada. As duas voltaram para casa e LuAnn fez mais perguntas a respeito de Roger, com a intenção de distrair Leslie. Foi um esforço porque LuAnn não costuma falar quando não sente vontade, muito menos para aliviar tensões. Mas por Leslie ela fazia um esforço.
— Você nunca viu ele por lá?
LuAnn fez que não com a cabeça erguendo os ombros. — Josh e eu vamos direto pro quarto e quase nunca vemos ninguém da família dele. Eu só vi Roger uma ou duas vezes quando ele apareceu pra reclamar ou pedir alguma coisa a Josh.
— Se você não contou a ele talvez Roger conte que você vai embora. Comentei com ele sem querer...
LuAnn deu de ombros. Percorreu a rua com os olhos por uns instante e virou outra vez para Leslie. — Se liga... Sei que você é diferente de mim e não quero dizer que deve agir como eu. — Leslie uniu um pouco as sobrancelhas para ela. — Mas tente ficar lúcida com esse garoto, OK? Ele também não é como o irmão, mas é um cara, e tem que ficar esperta não só com os homens mas com todos. Não entregue sua confiança a ele com facilidade.
A expressão de LuAnn era dura, Leslie concordou com um gesto mudo.
— O que acha que a mãe preparou pro almoço? —Ela perguntou quando desciam do ônibus.
— Vamos ver. — LuAnn sorriu de lado.
As irmãs atravessaram a sala em direção à cozinha. O ambiente em casa estava quente e aconchegante, fazia muito tempo que LuAnn não sentia isso. Sara estava fumando à janela e se virou para dentro, descartando o cigarro.
— Fiz almondegas. — Disse.
Leslie gemeu pelo apetite e foi à pia lavar as mãos, LuAnn puxou uma cadeira e sentou. Sobre a mesa estava salada de legumes, espaguete, a panela grande de bolas de carne mergulhadas no molho e uma garrafa de refrigerante. Elas comeram devagar, em silêncio, melancólicas, levemente atordoadas.
Para aquela família marcada pelo abandono, a partida de mais um membro, uma filha distante e alheia, era como meter os dedos em uma ferida e rasgar mais. Porém nenhuma delas tinha consciência disso, não passou por suas cabeças, mas foi o que aconteceu.
LuAnn sempre conheceu a escuridão que havia em seu interior. Figuras sombrias sempre lhe causaram fascínio obscuro, pessoas taciturnas com segredos tenebrosos nos olhares. A coragem selvagem que só é capaz de ter quem conhece a maldade. A ousadia característica de pessoas autênticas que encaram quem realmente são. A liberdade venenosa de sucumbir aos próprios desejos. Desde sempre ela podia enxergar essas coisas, tais que os outros preferiam não ver, fingir não existir. LuAnn sentia-se atraída, seduzida, mais que isso, enxergava a si mesma.
Pensava muito sobre isso.
Mas a consciência e convicção sobre isso ela adquiriu apenas perto dos quatorze anos. Antes disso LuAnn era uma menina quase comum, obediente, caseira, e então LuAnn começou a mudar esses hábitos. Fugia de casa para encontrar os amigos ou desviando do caminho da escola. Suas roupas e corte de cabelo mudaram gradativamente, passou a chegar em casa tarde e não dizer o que fazia o dia inteiro. Sara enfrentou o pavor de perder as rédeas, por algumas vezes tentou usar a força mas mudou de estratégia ao ver que isso apenas fazia LuAnn se rebelar e se tornar mais distante.
Sara encarou a sensação de se sentir desamada, perdida e sozinha. Enquanto isso LuAnn refletia muito sobre o que havia em sua própria mente, a fim de entender os sussurros interiores. A mãe passou da repreensão à condescendência precavida, ela se fortaleceu em suas convicções e nada a faria mudar. Havia sempre o clima de reprovação e ressentimento.
"Desculpe, mãe. Mas eu não posso mudar quem sou." Ela pensava.
O almoço terminou, LuAnn pegou a mochila, vestiu a jaqueta do pai, mais um olhar ressentido de Sara na porta de casa.
— Mantenha contato. — Ela disse para a filha. Um abraço. Lágrimas reprimidas. Coração ferido, endurecido, magoado.
— OK. — LuAnn sorriu levemente e baixou os olhos.
Leslie a acompanhou até a estação de trem. LuAnn sabia que ela estava se esforçando para não chorar ou pedir que ela ficasse. Leslie olhou para ela com os olhos perdidos. — Eu poderia ir com você.
— Não. Não poderia. — LuAnn respondeu com voz anavalhada. — Você só tem quatorze anos, e não é isso o que você quer. Você tem amigos, gosta de onde estuda, e agora tem o Roger. — Ela voltava ao seu ar gélido habitual, apenas com a irmã agia da maneira como agiu aquela tarde. E agora prestes a ir para longe de Leslie não havia ninguém que a faria agir assim.
— Você tem dezessete e está indo embora! — Leslie engasgou com o choro reprimido e sufocado, estrangulador.
O maxilar de LuAnn ficou tenso e ela não disse nada, pressionou os lábios um no outro e olhou ao redor. O dia nublado, chão molhado. Desencostou do telefone público, dando um passo de encontro a irmã.
— Eu te amo, garota. — A envolveu com os braços.
— Eu também te amo, Lu...
LuAnn tinha visto o trem se aproximar, ele parou no ponto e os passageiros começaram a desembarcar enquanto elas se apertavam no abraço.
— Você vai voltar? Um dia... — Leslie queria ouvir que sim, lembraria disso quando a saudade fosse muito grande. LuAnn poderia não voltar, ela poderia morrer.
LuAnn era a irmã mais velha, forte, corajosa, divertida. Para Leslie o refúgio quando ninguém mais compreenderia seus medos. LuAnn a incentivava, não julgava, acolhia. Nos tempos mais difíceis depois que Charlie as abandonara foi LuAnn quem a consolou, as duas agarraram uma na outra quando a mãe se amargurava. Sara melhorara desde então, mas LuAnn ainda era a melhor pessoa que Leslie tinha e ficaria perdida sem ela.
A expressão de LuAnn se tornou absolutamente enigmática e inexpressiva. — Não fique triste por minha causa, Lilie. Por favor, não fique. Fique bem, se divirta, se cuide.
Girou nos calcanhares e subiu os degraus do trem. Ela não sabia para onde iria ou o que faria, só uma coisa era certa, ela ia embora. Nunca sentiu pertencer aquela cidade, a lugar nenhum. Sua alma palpitava, o espírito gritava por liberdade. Era algo que não podia controlar e não queria fazê-lo. Queria sucumbir a todos seus desejos sórdidos, deleitar-se na loucura. A loucura que fazia parte de quem era.
Por isso era simples demais partir.
Ocupou um assento na janela e jogou a mochila no bagageiro acima. Esqueceu de acenar uma última vez para a irmã, mas esta apareceu em seu campo de visão e LuAnn sorriu, puxando os cantos da boca com os dedos indicadores. "Sorria", dizia à irmã. Desejou poder dizer a ela que voltaria, mas não pensava em voltar. Nem mesmo por Leslie.

Ufa...quanta coisa, tantos sentimentos é indagações de todos. TodoA, menos LuAnn, ela não tem dúvida do que quer, sabe que quer ir, para Onde ela ainda tem que descobrir. Mas ela tem essa certeza se que seu destino está vagando longe das ruas do Brooklyn e ela precisa busca-lo.
ResponderExcluirOlha...Ela dizer que sabe que tem algo de errado com ela, mas que isso não é algo errado. Até me arrepiei aqui, lembrei do Dexter de certa forma.
Mas oq achei foda foi ela ter essa consciência de que tem esse lado sombrio dentro dela E não ficar se negando, não ficar se enganando, não viver brigando consigo msm, lutando pra mudar quem ela é.
E a olho como a Samantha a vê, sabe?
Linda e forte, maravilhosa, mas que dá medo.
Vi nela pouco do Jax, fazendo coisas erradas (roubando por exemplo) e não sentir culpa por isso, afinal ela precisava juntar dinheiro. E vi no dela um tanto do Jonh (pai do.Jax), mas ainda espero saber sobre o pai dela.
Fiquei sensibilizada com essa relação dela com a irmã, com ela aconselhando, me identifiquei com a relação dela com a mãe.
Enfim....amei sua narrativa sobre os pontos de todos.
Pai dela **
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